segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Alma Bruma

Saudades tuas.
Saudades minhas.
Saudades que apaziguas.
Saudades feitas de conchinhas.

Caminho pela areia.
Caminho num aguaceiro.
Caminho com descomunal anseia.
Caminho arruaceiro.

Sozinho, morto-vivo, desalmado.
Sou tão cinzento…
Mas continuo a ser amado
Bem mais do que aparento.

Sou feito de pó.
Poeira dum crime rude.
Que me tem mantido só,
Só porque de sonhos me ilude.

Ilusões de magia.
Ilusões duma utopia.
Ilusões do tal dia.

Mais recluso que inteiro,
Sento-me mais uma vez.
Esperando que seja hoje o derradeiro
Dia em que me iludes outra vez.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Pintura

Tremo. Por todo o corpo, tremo.
Escrevi tanto que extingui a inspiração.
Com nostálgico medo, temo,
Que tenha findado mais c’a divina infusão.

Gastei toda a tinta.
Só me sobrou o cinzento.
Pinto, agora, com toda esta indistinta
Lamúria do meu decremento.

Talvez tenha colorido demasiado a tela.
Ou demasiado brusco.
Apenas sei que se esgotou numa centelha,
A tanta mancha que agora rebusco.

Possivelmente não fui artista suficiente.
E não medi bem as porções.
Desperdicei cor, impaciente,
Criando simplesmente borrões.

E pago agora por tal pressa.
Com saudade de quando tinha algo com que pintar…
Oxalá não tivesse ido tão depressa!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Tenho certas ideias a considerar,
Sobre o mais pecado ou tentação,
Mas não serei crasso ao menear,
Qualquer justa, de terceira opinião.

Gregos e Camões, sexistas e romancistas,
Ao sol das suas límpidas razões,
De experientes vidas e de olhares sem mais vistas,
Entoaram todos e cada um dos furacões,
Que pecaram, ou não, nas suas existências revistas.

Com belas palavras, metáforas e elogio,
De não mais conter soluço lacrimoso,
Irei, sem reprimir nenhum gritante suspiro,
Humanizar, sem desafio tormentoso,
O que no meu humilde peito respiro,
Para colorir a minha ideal arte, do pecaminoso.

Rosto liso, de tardoso sol luzente,
Amo de duas habitantes estrelas claras,
Curiosas sobre sua rubi boca inocente.

Pele trigueira mais quente que as mais raras,
Curvas esbeltas e aperaltas de sensualidade,
Criadora de gemidos por onde tampouco passa,
Com peitos sumptuosos de tamanha carnalidade.

Discernimento lascivo e queda para a graça,
Com gotas pingadas de decência esbatida,
Invoca guerras ciumentas em torno da gentaça,
Casta de tal poderio que a tal convida.

Voz de musa, cantada de cristal,
Que nem seu corpo primo tanto seduz,
Dança sua virtuosa nota musical,
Apartando da mais digna razão, toda a luz.

Hipnótica de caminhar, d’aspecto selvagem,
Faz o corcel alvitrar a mais rude besta
E rouba o mar a toda a paisagem,
Tornando a mais divindade, modesta.

De torrados cabelos, com sombras doiradas,
Alumia toda a praia, mais que Sol veraniço,
Com elegantes ondas delicadas,
Enciumando o mar, por levar do céu o seu feitiço.

Goza por não saber como tanto encanta,
Que bastavam seus olhares esmeralda,
Para desgraça causar a pobre gente tanta.

E nunca desejo tal me pousou o pensamento,
Pois somente de a sonhar meu desejo seria tamanho,
Que de pecado inundaria meu amor ciumento,
Para jamais me devolver o sabor acanho
Duma outra paixão, fazendo-me demento.

E ela, longe, desgarrada de ninguém,
Chora com rubor gesto, das suas existências desafortunadas.
Néscia que o certo Fado lhe guarda alguém,
E não será como as outras beldades coitadas,
A quem o destino enamorou também,
Sem estas tantas vontades elevadas.
E quando tal acontecer, será a mais feliz das namoradas.

(pensado e escrito na aula de Biologia - 12º ano)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Amo-te ♥

Amo-te Mariana.
Amo-te com não mais valor,
Que uma só e pobre pestana,
Caída inútil e despedida de primor.

Mas amo-te humanamente, meu amor,
Verdejante quanto faz primavera,
Pintado d’outono quando há temor,
Duma incessante brisa sincera.

Muito te amo, minha pequena,
Tanto de amigo, como de amante.
Amo-te de tod’alma plena,
Não fosses feita do mais belo diamante.

Amo-te por dos meus sonhos seres princesa,
Desenhada pelo mais célebre autor,
Que incapaz de criar nova deusa,
Te criou a ti, oh meu tão desejado amor.

Amo-te eterno, minha cúmplice,
Afogado num mar agito de saudade,
Crendo que o Fado novas velas erice,
Soprando-as rumo há imortalidade.

E apenas cessarei triste duma imensa mágoa infama:
Que da magia tudo que pude, retirei,
E nada se igualou ao quanto meu coração te ama.

Feliz dia de S. Valentim 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Gato Malhado

Nasceste, gato malhado
(tal como eu nasci)
Com pouco pelo e aconchegado,
De olhos pesados e ensanguentado.
Te limparam a pelagem
Com carícias e te encheu,
Tua mãe, de mimos e miragem.

Miragens de amor,
Amamentadas com calor tranquilo.
E depois cresces e fazes-te reguilo:
Brincas com fervor,
Nas ruas de felino
Rodeado por flores cheias de cor.

Não esqueces sequer nenhum caminho,
Nem a mínima placa de STOP.
E ao voltares o teu bigodinho,
Com os teus passos de galope,
Passeias para o jardim do vizinho,
Calcando as mesmas pegadas sem retoque.

E logo, quando já estiveres em casa tua,
Os sonhos dantes sonhados,
Tornam-se mais dourados
E alvos. Tornam-se reais pela ingenuidade
Sincera dos teus poucos muros saltados.

Sim tu, gato malhado!
Hás-de perceber que de ingénuo,
Nada havia nesse e naquele telhado.
Nada, senão o engenho
Das ruas que te carrearam,
E com as suas luminentas sombras te lograram.

Hás-de de ver,
Que os sonhos doirados
Eram poeirentos.
Que até os ventos mais pesados
Serão obstados para os bafejar
E de todo a nevoaça os limpar.

(pensado e escrito na aula de Biologia - 12º ano)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A Varanda Amarela

Estava um dia frio. Se não estava, eu sentia-o frio. O sol brilhava alto num dia seco de Inverno, com uma pitada demasiada de vento. As árvores buliam umas contra as outras e o mar barafustava o seu desagrado com umas ondas tenebrosas. No entanto, o dia estava limpo e as nuvens, essas, tristes como eu, moravam numa ilha longe do meu céu. Avancei na varanda amarela e aproximei-me o mais próximo possível do ponto em que o céu tocava o mar. Olhei toda aquela paisagem bonita. O vento tolhia-me a cara de lágrimas e obrigava as minhas mãos a manterem-se no interior do bolso da camisola. Chamar-lhe gélido era elogia-lo. Eu gelado por mim só, tentava aquecer-me inutilmente com memórias débeis e ainda acesas. Deixei o vento brincar com o meu cabelo sem me importar com a minha aparência. Quem quereria eu impressionar naquele dia? Não estava com paciência para burocracias sociais. As mangas terminavam-me nos nós dos dedos dentro da minha bolsa de canguru e mesmo assim sentia-me gelado. O capuz cobria-me a nuca e as orelhas e mesmo assim tinha frio. Comecei a pensar que mesmo que estivesse em pleno verão, num praia paradisíaca, vestido com roupa de neve, estaria a sentir-me gelado. Tinha os phones nos ouvidos e qualquer música parecia-me desadequada. Não eram aquelas músicas que eu queria ouvir naquele momento e, contudo, ao saber disto, entristecia-me cada vez mais. Quando voltaria a ouvir a musica que realmente queria ouvir? Parei, incapaz de olhar mais o horizonte e sentei-me, agarrando os joelhos o mais próximo do peito que consegui. Protegido pela esquina grossa e amarela da varanda, o vento cessou. E as lágrimas começaram a escorrer-me, vazias e impiedosas pelo rosto, deixando trilhos de saudade espalhados pela minha cara. Os meus pulmões estremeceram uma e outra vez enquanto eu me tentava controlar. Por fim, apaguei os olhos e deixei a minha mente ser conquistada por todos os sentimentos latejantes. Subitamente, senti um choque na ponta do meu nariz e abri os olhos. Não me encontrava mais na varanda amarela, mas sim num banco cinzento que habitava um jardim verde com uma bela vista para um rio. Na outra margem do rio avistava vários armazéns com nomes e figuras estranhas. Muitos deles diziam caves. O Sol brilhava no alto, a desviar para o mar. E eu, extraordinariamente, já não estava frio. Tinha uma cabeça pousada no meu colo e as minhas mãos brincavam com esse rosto. Sentia-me quente como se estivesse em frente à minha acolhedora lareira, embora fosse um dia glacial. Tinha descalçado as luvas e acolhia a sensação da sua pele em mim. Ela era tão quente… Olhei-a. A sua face era branca, muito bonita, com uns olhos cor de azeitona, grandes e redondos a imperarem. Os seus lábios eram doces e finos, coloridos de vermelho cereja, dando-lhe um sorriso sensual e belo. Os cabelos negros e lisos deitavam-se aqui e ali, cobrindo-lhe um rosto demasiado atraente para me conseguir manter brando. Aproximei-me dela e beija-a na boca, sentindo-me ainda mais atraído. Os seus beijos eram afrodisíacos e perfeitos como o mais poderoso fruto adocicado e apetitoso. Sentia uma força gigante a impelir-me para ela. Os nossos lábios dançaram juntos, enquanto as nossas melodias apaixonadas os embalavam. Era um momento em que o tempo parava, tudo a minha volta desaparecia e a única coisa que me interessava era ela. Quando me afastei e abri outra vez os olhos, vi o seu sorriso harmonioso e o seu nariz aproximou-se do meu, roçando-se. Conseguia sentir-lhe o rosto franzido e contorcido enquanto empurrava o seu narizinho para o meu. Senti um choque novamente e com um sobressalto acordei outra vez na varanda, sozinho. Desesperei novamente num pranto choroso. Ia passar um dia difícil, tinha a certeza. As saudades não me iriam perdoar desta vez.