Estava um dia frio. Se não estava, eu sentia-o frio. O sol brilhava alto num dia seco de Inverno, com uma pitada demasiada de vento. As árvores buliam umas contra as outras e o mar barafustava o seu desagrado com umas ondas tenebrosas. No entanto, o dia estava limpo e as nuvens, essas, tristes como eu, moravam numa ilha longe do meu céu. Avancei na varanda amarela e aproximei-me o mais próximo possível do ponto em que o céu tocava o mar. Olhei toda aquela paisagem bonita. O vento tolhia-me a cara de lágrimas e obrigava as minhas mãos a manterem-se no interior do bolso da camisola. Chamar-lhe gélido era elogia-lo. Eu gelado por mim só, tentava aquecer-me inutilmente com memórias débeis e ainda acesas. Deixei o vento brincar com o meu cabelo sem me importar com a minha aparência. Quem quereria eu impressionar naquele dia? Não estava com paciência para burocracias sociais. As mangas terminavam-me nos nós dos dedos dentro da minha bolsa de canguru e mesmo assim sentia-me gelado. O capuz cobria-me a nuca e as orelhas e mesmo assim tinha frio. Comecei a pensar que mesmo que estivesse em pleno verão, num praia paradisíaca, vestido com roupa de neve, estaria a sentir-me gelado. Tinha os phones nos ouvidos e qualquer música parecia-me desadequada. Não eram aquelas músicas que eu queria ouvir naquele momento e, contudo, ao saber disto, entristecia-me cada vez mais. Quando voltaria a ouvir a musica que realmente queria ouvir? Parei, incapaz de olhar mais o horizonte e sentei-me, agarrando os joelhos o mais próximo do peito que consegui. Protegido pela esquina grossa e amarela da varanda, o vento cessou. E as lágrimas começaram a escorrer-me, vazias e impiedosas pelo rosto, deixando trilhos de saudade espalhados pela minha cara. Os meus pulmões estremeceram uma e outra vez enquanto eu me tentava controlar. Por fim, apaguei os olhos e deixei a minha mente ser conquistada por todos os sentimentos latejantes. Subitamente, senti um choque na ponta do meu nariz e abri os olhos. Não me encontrava mais na varanda amarela, mas sim num banco cinzento que habitava um jardim verde com uma bela vista para um rio. Na outra margem do rio avistava vários armazéns com nomes e figuras estranhas. Muitos deles diziam caves. O Sol brilhava no alto, a desviar para o mar. E eu, extraordinariamente, já não estava frio. Tinha uma cabeça pousada no meu colo e as minhas mãos brincavam com esse rosto. Sentia-me quente como se estivesse em frente à minha acolhedora lareira, embora fosse um dia glacial. Tinha descalçado as luvas e acolhia a sensação da sua pele em mim. Ela era tão quente… Olhei-a. A sua face era branca, muito bonita, com uns olhos cor de azeitona, grandes e redondos a imperarem. Os seus lábios eram doces e finos, coloridos de vermelho cereja, dando-lhe um sorriso sensual e belo. Os cabelos negros e lisos deitavam-se aqui e ali, cobrindo-lhe um rosto demasiado atraente para me conseguir manter brando. Aproximei-me dela e beija-a na boca, sentindo-me ainda mais atraído. Os seus beijos eram afrodisíacos e perfeitos como o mais poderoso fruto adocicado e apetitoso. Sentia uma força gigante a impelir-me para ela. Os nossos lábios dançaram juntos, enquanto as nossas melodias apaixonadas os embalavam. Era um momento em que o tempo parava, tudo a minha volta desaparecia e a única coisa que me interessava era ela. Quando me afastei e abri outra vez os olhos, vi o seu sorriso harmonioso e o seu nariz aproximou-se do meu, roçando-se. Conseguia sentir-lhe o rosto franzido e contorcido enquanto empurrava o seu narizinho para o meu. Senti um choque novamente e com um sobressalto acordei outra vez na varanda, sozinho. Desesperei novamente num pranto choroso. Ia passar um dia difícil, tinha a certeza. As saudades não me iriam perdoar desta vez.
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