“Apesar de bem negro, seria menos negro do que o que estás a sentir…”
Passei o fim-de-semana abandonado numa minha própria casa, com uma família que já não sei ser a minha, envolvido num silêncio tal que nunca tinha vivenciado. Na semana anterior, os meus olhos derreteram, incapazes de se agarrarem às orbitas. Sinto-me um gordo, sedentário, preguiçoso, como um daqueles rinocerontes tarados que passam 90% do dia a ver pornografia e que fazem da virtualidade, realidade. Não me entendo comigo. Aquela parte de mim que deveria, por todos os motivos óbvios, estar satisfeita, range por todo lado, numa deselegante insegurança assustadora, tornando-me bipolar. Para onde foi aquela maçã vermelho vivo? Ou o circulo (im)perfeito desconhecido e sonolento? Ou até o calor húmido e o sentimento de desconforto por ele causado? O arrependimento? O negro invade-me. É impiedoso. Escorre-me sangue pelo rosto, vaza dos cantos até à ponta pingando-me os lábios. Decadente, estou. Algo está a destruir a minha realidade. Um sonho túrgido, inflamado pelo subconsciente, uma utopia… Estou soturno.
Foi verdade ou sonhei? Suplico por aquele dia que se me assemelhou negro brilhante. Ao menos esse negro sempre brilhava, apesar de pesar, como pesa o pecado na alma, no coração e ter um sabor amargo na boca. Ajoelho-me e brado que me voltem a dar esse dia onde ao menos eu não era negro só. Sobra dele apenas o caroço ténue, quebrável, frágil, apoiado na palma da minha mão. E aquela outra metade tende em balança-lo mesmo sem ponta de vento, não sei, quererá parti-lo, rasga-lo, estragar tudo o que guardei até hoje!? Não senti nada…
Foi assim o fim-de-semana todo por motivos anormais. Chover desmorona montanhas, destrói cidades, inunda terras, derrete estátuas de pedra dura e eu chovi. Incapaz de evitar tudo, caí em nada e cá estou, desamparado, engolido na soturna escuridão.
Que amanha seja um dia jovem e que não chova nunca mais até Janeiro.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Cicatriz
Dormia um lobo ao relento.
O frio soprava-lhe o pelo,
E o vento arrepiava-lhe a cauda, violento.
Ouve-se um uivo de solidão,
Solto dum desespero gelado
Do lobo abandonado na escuridão.
Havia-se abandonado sozinho,
Despreso do desprezo da matilha
Que tingira de cicatrizes o seu focinho.
Ao pobre, antes, uivara o frio e vento,
Tal proposta, ambos ouvira ingenuamente.
Respondeu ao vento, silenciosamente,
Silenciando que o ente era demente:
Em inícios frio e a meados quente.
Ao tanto frio uivou a pulmões de gente,
Pois o tanto era constante.
Vingando o sangue da traição dos ventos,
Preferiu então uivar frio ao frio,
Que quente uivar ao vento.
O frio soprava-lhe o pelo,
E o vento arrepiava-lhe a cauda, violento.
Ouve-se um uivo de solidão,
Solto dum desespero gelado
Do lobo abandonado na escuridão.
Havia-se abandonado sozinho,
Despreso do desprezo da matilha
Que tingira de cicatrizes o seu focinho.
Ao pobre, antes, uivara o frio e vento,
Tal proposta, ambos ouvira ingenuamente.
Respondeu ao vento, silenciosamente,
Silenciando que o ente era demente:
Em inícios frio e a meados quente.
Ao tanto frio uivou a pulmões de gente,
Pois o tanto era constante.
Vingando o sangue da traição dos ventos,
Preferiu então uivar frio ao frio,
Que quente uivar ao vento.
Subscrever:
Comentários (Atom)