Pensamos sempre que tudo é incerto. Então quando pensamos que o que outra pessoa pensa, não é o que pensamos que era, pensamos que estávamos translúcidos e fomos inocentes quando pensamos que o que essa pessoa pensou era igual ao que nós pensamos. Certo. Mas isto penso eu e pode estar incerto. Acontecem coisas que não controlamos e somos regidos por elas como burros com palas e rédeas a serem chicoteados no traseiro, ignorando tudo o que esta a volta. Uma e outra vez levamos chicotadas e somos empurrados nas direcções que achamos estar certas, pisando o terreno mais duro possível e desviando-nos de qualquer lomba ou obstáculo que nos possa prejudicar o trajecto, ignorando todo o redor envolvente. Até que, vindo do nada aparece-nos um buraco enorme, e vemo-nos presos lá dentro, sozinhos, com o chicote a bater-nos com toda a robustez e as rédeas a apontarem em todas as direcções para nos tirar de lá. Começamos por ficar agitados e esperneamos e damos coices em todas as direcções sem repararmos nos que estão fora do buraco a tentar ajudar-nos. De súbito, paramos e olhamos a nossa volta reparando que já não temos nem as palas nem as rédeas. Percebemos que estávamos a viver meia realidade e que o buraco estava lá quando caminhávamos. Caímos nele porque não o vimos, porque fomos conduzidos nessa direcção e por causa das palas não o vimos e deixamo-nos cair. As pessoas no topo do buraco estendem cordas para nos tentar resgatar, mas estamos presos e furiosos e não as conseguimos ver nitidamente. Loucos de raiva tentamos por as culpas em alguém, cuspindo em todas as direcções, até mesmo nas que nos levam à saída. Finalmente, existe alguém são o suficiente para descer um pedaço de corda mais grosso e olhamo-lo com outros olhos. Já passou a raiva e a loucura e sentimos apenas a falta do chicote a bater-nos e aquecer-nos enquanto caminhávamos felizes pelos campos. Ficamos muito tempo a olhar aquela corda e todas as outras desaparecem sem darmos por ela, porque apenas essa nos importa. Até que nos decidimos a agarra-la e puxa-la. Nesse momento erguem-nos e olhamos o caminho que tínhamos feito até aquele buraco. Concluímos que o prado em que estivemos a passear felizes era afinal um pequeno trilho relvado e floreado no meio duma clareira seca e esburacada. E que em nosso redor existem muitas outras coisas que nunca tínhamos descoberto e tantas outras por descobrir. E, o mais importante de tudo, agora caminhamos livres de rédeas e palas e chicotes, acompanhados por outros burros livres que foram socorridos dos seus buracos frios e que agora caminham felizes.
Sendo incapazes de entender por completo o que os outros pensam, tentamos sempre criar a nossa própria realidade feliz. Acabaremos sempre por caminhar terrenos escorregadios e muitos obstáculos se atravessarão no nosso caminho, mas o importante é que estejamos sempre rodeados por outros que nos estendam cordas e que nos arranquem desses buracos escuros.
Obrigado a todos os que me ajudaram e a todos que ainda me aturam quando estou insuportável.