Éramos crianças naquela altura. Costumávamos brincar no jardim de casa dele, era perfeito. É tudo tão perfeito quando somos crianças, tudo tão inocente e inofensivo... Sem problemas, sem complicações, sem regras da sociedade, sem esquemas, sem falsidade... Bastava um pequeno olá e um sorriso e já éramos os melhores amigos... Estávamos prontos a enfrentar o mundo das brincadeiras e dos sonhos, prontos a desvendar todos os mistérios das histórias mágicas que o nosso mundo inventado nos contava. E com ele foi assim. Éramos os dois desconhecidos, ambos enfiados num carrinho de compras dum hipermercado qualquer. Eu estava com os meus pais, e ele estava com a sua mãe lembro-me perfeitamente. Lembro-me de estar entretida com uma boneca qualquer , focada no seu penteado desleixado e ruivo, ajeitando-lhe as roupas amarrotadas, quando o meu carrinho parou. Pedi ao meu pai ou a minha mãe que me pusesse no chão , pois ele tinha feito exactamente o mesmo pedido à sua e eu não iria ficar atrás. Desde pequena que era orgulhosa.
Ele trazia um dinossauro na mão, achei imensa piada pois parecia uma galinha com asas bicudas e ri-me. Ele olhou-me com escárnio, interrogando-se com os seus lindos olhos verdes o porquê de tal reacção da minha parte. Eu corei por um momento ao presenciar a beleza do seu olhar, mas rapidamente me recompus e disse:
-Olá.
-Olá menina.
E esboçou o seu sorriso enorme e brilhante, como se estivéssemos prontos para a brincadeira. Ele deu bicadas com o seu dinossauro na minha boneca e eu afastei-o e bati-lhe, mas ele não desistiu e eu bati com a minha boneca no dinossauro dele. E divertimo-nos ali, na secção da fruta, durante uns minutos enquanto os nossos pais conversavam.
Esta é a primeira memória que guardo dele. A partir desse dia pedi muitas vezes à minha mãe para o ir ver, ele tinha sido o meu primeiro amigo, e eu divertia-me imenso com ele.
Já passaram muitos anos desde a última vez que eu o vi.
Um dia estava em minha casa e o meu pai entrou a correr, completamente louco de dor, e chamou aos berros pela minha mãe. Eu estava no meu sofá a ver televisão enquanto despachava os trabalhos de casa de estudo do meio. Vinha coberto de cinzas e tinha a mão completamente queimada. A minha mãe desceu do seu quarto e ficou aterrorizada, tal como eu já me encontrava. O meu pai estava num estado deplorável, a sua camisa toda rota e já não sobrava quase nada dos seus calções. Corri para ele mas ele afastou-se e mandou-me para o quarto. Estava ajoelhado e tossia compulsivamente. Eu obedeci cegamente.
Mais tarde, a minha mãe bateu a porta e disse-me que íamos sair. Segui-a sem sequer me atrever a falar, mas o meu frágil coração já não aguentava muito e o medo que sentia era esmagador. Tropecei num degrau e caí.
Acordei no Hospital. Tinha desmaiado por ter entrado em estado de choque. Soube que tinha acontecido uma fuga de gás na vivenda dele, e que o meu pai, que era bombeiro estava a passar por perto na altura, e tentou resgatar de lá os moradores. O fogo já dominava quando lá chegou e nada conseguiu fazer. O pai dele havia morrido , intoxicado pelas cinzas. A mãe nao se encontrava em casa na altura do incendio, e ele, tinha desaparecido. Nem sinal do seu pequeno corpo, ou de restos dele.
Um dia meu pai quis visitar as ruínas da casa e eu supliquei-lhe que me levasse. Não sei como nem porquê mas ao ver-me a chorar , o meu pai não conseguiu dizer-me que não. Lembro-me de lá chegar e de estar tudo destruído. Entramos e ele dirigiu-se a cozinha, eu não consegui passar da sala. Ainda era possível sentir o cheiro a cinzas e sentir uma fina camada de pó a afastar-se quando caminhávamos. O sofá onde muitas vezes nós tínhamos visto televisão juntos, estava agora completamente carbonizado, juntamente com a toda a mobília da sala. Vasculhei qualquer coisa que me incapacita-se de o perder no meu coração. Procurei por uma foto junto da lareira onde tinha começado o incêndio mas obviamente que não encontrei nada a não ser cinzas. Então quando já não aguentava mais estar presente naquela casa, o meu olhar prendeu-se num pequeno objecto que se encontrava a um canto por baixo de qualquer coisa de metal. Era o pequeno dinossauro.
Talvez tenha morrido, não sei. Mas eu cresci e gostava muito que ele me pudesse ver agora.
Nunca mais fui a mesma. Nunca mais o esqueci e tenho a certeza de onde quer que ele esteja , ele também se lembra de mim. Nunca mais fui capaz de deixar alguém se aproximar de mim... Até ontem.
A todo um viver corresponde um sofrer.
Bons anos haviam passado desde a última vez que eu o vi. O seu dinossauro continuava pousado na berma da minha janela e de lá nunca iria sair. Ontem era um dia completamente normal. Estávamos de férias e o Sol despertou-me pela janela do apartamento como sempre naqueles dias. Equipei-me para ir correr no central park como era costume nas manhãs. Alguma coisa me dizia que este dia não ia ser exactamente igual a todos os outros apesar da rotina cumprida até chegar ao parque. Telefone na mão com os headphones na cabeça e zarpei em corrida pelo jardim majestoso. Observei tudo com cuidado, como era costume, adorava a natureza verdejante e aberta, e o ar limpo daquele sitio. Era-me impossível não esboçar um sorriso sempre que por lá passava. A música calma, ajudava a começar o dia sem preocupações. Sempre gostei de Pearl Jam , mas o seu novo tema, Just Breathe, era fantástico para abrir a fome ao dia e começar a manhã sem qualquer tipo de pressões.
Did I say that I need you?
Did I say that I want you?
Oh, if I didn’t now I’m a fool you see,..
No one knows this more than me.
As I come clean.
Era uma música romântica, identificava-me com ela. Sentia falta dele, acho que desde o momento em que o tinha visto, que o amava. Talvez por não saber se ele ainda estava vivo ou não , ou então porque talvez qualquer um dos rapazes que se tinham aproximado de mim eram como todos outros tantos, comuns; ou talvez porque ele tinha sido o meu primeiro amigo, ou coisa do género.
Sempre que corria o jardim, pensava nele. Indescritivelmente, ao fim de tantos anos, eu ainda me lembrava de todos os pormenores dos nossos encontros, das nossas brincadeiras… Ele podia estar morto, mas no meu coração nunca iria morrer.
Foi então que quando ia a cruzar um banco daqueles de madeira, característicos dos filmes, notei num rapaz lá sentado. Ostentava uma viola, castanha escura, muito gasta, e cheia de autocolantes de várias cidades da Europa. Despertou-me imensa curiosidade, como se me fosse completamente familiar, mas não conseguia distinguir de onde vinha tal familiaridade. Senti um demorado arrepio ao longo da minha espinha até á ponta dos cabelos, e nesse momento parei a minha corrida. Encontrava-se por baixo duma árvore, com um gorro negro na nuca, de onde espreitavam grossas rastas douradas que lhe tocavam os ombros. A sua pele era morena e suja, como se não tivesse uma casa fixa, e estivesse a precisar dum bom banho. Vestia uma camisola com bolsinha de canguru azul bebe, e por cima, um casaco quente, completamente vermelho. As suas calças eram cinzentas e de bombazine. Tocava exactamente a musica que eu estivera a ouvir no inicio da minha jornada pelo jardim. Achei singular tal coincidência e aproximei-me. Ele reparou na minha aproximação e começou a cantarolar a letra da bonita canção. Para mim, o tempo parou. Em segundos aconteceram milhões de coisas estranhas e empolgantes ao mesmo tempo. Ele olhou-me, eu reconheci-lhe o olhar e ele reconheceu o meu. Sorriu-me e esbugalhou os seus lindos olhos, e sem parar de cantar, fez-me sinal com a cabeça para me sentar ao seu lado. Acatei o seu pedido sem qualquer pensamento. Alguma coisa tinha feito parar o tempo e o meu coração e o meu cérebro pararam com ele. Mal me sentei, senti qualquer coisa a empurrar-me para ele, como se alguém nos tivesse amarrado com uma corda e nos estivesse a apertar.
-Canta comigo. – Disse ele com uma voz rouca e melodiosa, tal como o cantor da banda.
E cantamos os dois a música até ao fim. Foi um momento único, completamente fascinante, já não me sentia atraída por alguém daquela maneira desde que ele tinha partido. Perfeito.
No fim ele pousou a guitarra junto ao banco. Levantou-se e espreguiçou-se mesmo a minha frente e depois virou-se para me encarar de frente. Não conseguia tirar os olhos do seu olhar, estava completamente vidrada. Ele sorriu esbanjadoramente e gracejou:
-Olá menina.
By: Fernão Lobo