Se eu escrevo é por causa dela,
Se eu sofro é por causa dela,
Se me doi é por causa dela,
Se eu relembro é por causa dela,
Se eu sou diferente é por causa dela,
Se eu não durmo é por causa dela,
Se eu choro é por causa dela,
E mesmo assim,
Eu não consigo deixar de pensar nela.
By: Fernão Lobo
quarta-feira, 14 de abril de 2010
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Voz do Coração
- Liga o carro.
- Onde é que vamos ?
- Vamos onde quiseres, estas num táxi.
- Num táxi ?
- Sim estúpido, isto é um sonho, e eu sou o teu táxi. Onde queres ir ?
- Hã ? Então isso quer dizer que eu estou a falar para um carro ?
- Já te disse, isto é um sonho, um sonho teu, e estás a conduzir um táxi. Eu sou o teu táxi.
- Então eu estou a falar para mim mesmo ?
- Olha, e se parasses de fazer perguntas e escolhesses um sítio para ires, hum ?
- Ok, ok...
- Então... Vai ser para onde ?
- Sei lá, pode ser qualquer sítio ?
- Diz-me onde queres ir e eu vejo se te posso lá levar.
- Bem, sempre quis ir a Tóquio !
- Tóquio ? Não podes ir a Tóquio.
- Não posso ir a Tóquio ? Porque é que nao posso ir a Tóquio ?
- Porque nunca lá foste.
- Eu sei que nunca lá fui é por isso que quero lá ir !
- Não estás a captar a essência do sonho, burro.
- Pronto , eu digo outro sítio.
- Desta vez pensa melhor.
- Londres. Londres pode ser nao pode ?
- Pode, já lá fomos nao ja ?
- Sim, com ela... Bons velhos tempos...
- Lembraste-me como foi ?
- Sim.
- Queres falar sobre isso ?
- Não.
- Porque não ? Pensei que já tinha cicratizado.
- Cicatrizado ?
- Sim, a ferida que ela me causou.
- Mas afinal quem és tu ?
- Eu ? Não tenho um nome definido, eu sou tu.
- Mas isto não é um sonho ?
- Precisamente.
- Então se eu sou eu , como é que tu podes ser eu ?
- Porque eu sou parte de ti.
- Sim, realmente sinto-me mais leve.
- Deixa de ser engraçadinho. Vais ter de ser tu a adivinhar.
- És a minha pila.
- Pára com isso.
- Já sei ! És o esquerdo !
- És tão porco.
- Não, tu é que és, porque tu és eu , segundo o que me estás a dizer.
- Não sou essa tua parte.
- Ainda bem, não me quero ver livre dessa parte de mim.
- Mas tu nunca pensas em mais nada ?
- Se és realmente eu como afirmas ser, já devias saber...
- EU SOU TU , COM MIL RAIOS! És capaz de te concentrar ?
- Porque é que paramos ?
- Já chegamos onde querias chegar.
- Que jardim é este ? Eu conheço este jardim.
- Claro que conheces. Sai de cima de mim.
- Como assim ?
- Sai de cima de mim, sai do taxi , sai lá para fora, vai apanhar ar , qualquer coisa, SAI!
- Tu és um stressado, tambem... Calma, calma ! Já saio.
- Não sou. Tu és.
- Ela está ali.
- Pois está.
- Tem uma coisa para mim.
- Pois tem.
- É um ramo enorme...
- Pois é.
- E esta vestida como ela sabe que eu adoro.
- Pois sabe.
- Adoro os olhos dela...
- São mesmo bonitos não são ?
- São, mesmo castanhos são os mais bonitos de todos.
- Ela parece tão... Impaciente.
- E está, tu sabes que está.
- E porquê ?
- Tu sabes porquê.
- Sei ? Adoro os caracóis dela...
- São mesmo maravilhosos não são ?
- Pois são.
- Costumavam cheirar tão bem...
- Lembraste de como era acordar com eles na cara ? Macios e leves ?
- Não...
- Quem é ela ? Nao te lembras ?
- Não sei bem...
- O que sentes por ela ?
- Ela é perfeita.
- Sim, ela é perfeita.
- O que me aconteceu ?
- Já descobriste quem eu sou ?
- Não. Não tou a perceber nada.
- Ai Minha Nossa Senhora dos Remédios... Tu és mesmo burrinho nao és ? Chega-te aqui. Encosta-te ao capô.
- Não me parece.
- Cala-te.
- Tou a ir.
- ENCOSTA-TE !
- Pronto, já está. Adoro o teu humor, a sério.
- Agora espera um pouco.
- O que é isto ?
- Já te lembras dalguma coisa ?
- Sim, eu... Eu amo-a.
- Queres perde-la ?
- Nunca.
- Então tens de descobrir quem eu sou.
- AU! Que foi isso ?
- Foi um choque, para levantares esse rabo gordo de cima de mim.
- Eu não me acredito que estou a ser insultado por um carro.
- Não sou um carro, sou um táxi, sou tu.
- Eu não sou um táxi.
- Então eu tambem não.
- Mas acabaste de dizer que... Oh esquece. Não dá para discutir contigo.
- Contigo !
- Comigo ?
- Sim , contigo, estás a discutir contigo.
- Pára com isso.
- Ainda não fazes a menor ideia quem eu sou ?
- És um estúpido táxi falante que dá choques.
- Já te tinha dito que adorava esse teu humor ?
- Já. Não. Espera... EI! Eu é que te disse isso !
- Não, não.
- Pára , a sério, estas-me a chatear.
- Eu não estou a fazer nada de mal...
- Vou-me embora.
- Vais ? E ela ?
- Ela? Ela paralisou.
- Pois foi.
- Já se está a mexer outra vez.
- Ainda queres ir embora ?
- Não, eu tenho dir ter com ela.
- Não podes tens de descobrir quem eu sou.
- MERDA ! És o meu cerebro ! O meu subconsciente ! Sei lá !
- Quase.
- Quase como assim ?
- Acertaste metade.
- Metade ? Isso quer dizer o quê ?
- Porque é que eu tenho a forma dum táxi ?
- Não é a tua forma original.
- Já estamos a chegar a algum lado.
- Devias ser uma pessoa, pelo menos ter um personagem.
- Bem visto. Espera um pouco.
- TU!? Mana !?
- Qual é o espanto ? Sabes bem que esta voz não é tua, não tens voz de rapariga.
- Tu morreste. Ela morreu , eu vi-a morreu.
- Não está morta no teu coração.
- Não a deixava morrer, ela é a minha irmã.
- Porque não falaste para mim ?
- Porque tu não és ela.
- Quem sou então ?
- Porque tu... és eu.
- Olha para o jardim.
- Ela está a sorrir. Que lindo sorriso.
- Não está a sorrir sem motivo.
- Está a sorrir para alguem. Quase que lhe consigo ouvir o corção, ela está ansiosa.
- Olha para o outro lado da estrada, a chegar à passadeira.
- Sou eu.
- Pois és.
- Eu amo-a. Ela é realmente fantástica, gosto tanto dela.
- Cuidado com o carro miúdo ! És sempre a mesma coisa.
- Eu tenho dir ter com ela.
- Já estás a ir. Estás a atravessar a estrada, olha bem para ali.
- Olha que brasa que eu sou.
- És tao humilde miúdo.
- Ela levantou-se.
- Olha para a tua cara de espanto.
- Eu sabia que ela me ia fazer uma surpresa.
- Mesmo assim fizeste uma cara de espanto.
- Fiquei surpreendido na mesma. Não estava a espera disto dela.
- Ela gosta mesmo de ti, mesmo que não o mostre sempre.
- Consigo arranjar melhor, ela não é boa o suficiente.
- Tu amas-la.
- Pois amo.
- E ela ama-te.
- Pois ama.
- Então porque é que o resto interessa ?
- Não interessa.
- Isso... Não interessa...
- Tens razão, eu amo-a. Acho que...
- Achas o que ?
- Não preciso de mais ninguém além dela. Sou tão feliz só de estar ao lado dela.
- Ela entregou-te o ramo agora mesmo.
- Olha para ela a corar ! Adoro quando ela fica corada...
- Tu dizes-lhes coisas tão bonitas.
- Digo ?
- Dizes. É pena , serem mentiras e graxa.
- O quê ?
- Sim , palavras usadas para todas.
- Não, isso nao é verdade. Eu sinto o que lhe digo.
- Então porque dizes isso a todas ?
- Ela é diferente.
- Ela está a tirar uma coisa do bolso.
- Eu AMO-A ! Como é que podes dizer uma coisa dessas !? Eu amo-a.
- Ela acabou de tirar uma coisa do bolso. Pára de me tentar acertar.
- Não digo isso a todas, com ela é diferente ! Vais levar !
- OLHA!
- O quê ?
- Ela está a pedir-te em casamento.
- Não devia ser ao contrário ?
- Ela não aguenta viver sem ti.
- Eu não sei viver sem ela.
- Então aceita.
- Não sei, não me quero casar já.
- Vais-lhe partir o coração ?
- Nao era capaz.
- Olha bem o que fizeste.
- Nao me acredito.
- Porque é que o fizeste ?
- Tinha medo.
- Olha o que aconteceu.
- Ela esta a ir embora... AU ! EI! Que grande bofetada que ela me deu.
- Mereceste.
- Vou atrás dela.
- Pois vais.
- Ela atravessou para o outro lado da rua.
- Corre.
- Corre! CORRE!
- Tas a falar para quem ? Ele nao te ouve.
- Não ?
- Não.
- Ele vai levar com...
- CUIDADO COM O ...
- Fui atropelado !
- Por um camião TIR.
- Nada bom.
- Nada mesmo.
- Porque é que ficou tudo branco agora ? Até as tuas roupas ?
- Isto é onde estás agora.
- Num sítio gigante , sem horizonte, todo branco ? Com a minha irmã morta ? Não bate certo...
- Não estás aqui mesmo, mesmo. E eu não sou a tua irmã, eu sou tu.
- Estou onde ? Estou morto ?
- Estás.
- Estou !?
- Não.
- Estou a morrer ?
- Estás. Olha para ti.
- Bata azul. Mostra-me onde está o meu corpo.
- Estás em coma. Vais morrer.
- Não quero morrer.
- Mas vais.
- Não há nada que eu possa fazer ?
- Não.
- Então porquê isto ? PORQUÊ !?
- O que é que eu te disse no início da nossa conversa ?
- Como assim ?
- O que é que eu te disse que tinhas de descobrir.
- Quem tu eras.
- Exacto.
- E és o meu subconsciente.
- Os subconscientes nao falam directamente connosco.
- Não estás a falar directamente, eu estou a morrer.
- Pois estás.
- Páras de concordar com o que eu digo ? Já me estas a enervar !
- Como queres que eu nao concorde contigo se eu sou tu ?
- És Deus !? Um anjo !?
- Qual foi a parte do "eu sou tu" que não entendeste miúdo ?
- Ok, se não és Deus nem o meu subconsciente, és o quê ?
- Tu naturalmente não usas essa coisa a que chamas cérebro pois não ?
- Não te vou responder a isso.
- Estás a tremer.
- Não quero morrer.
- Vou-te dar uma pista. O que lhe dizias sempre ?
- Eu ? A quem ? A ela ? Que ela era linda.
- Sim, isso também, mas uma coisa muito importante.
- O quê ?
- Estás a ficar sem tempo.
- AJUDA-ME !
- Não te posso ajudar.
- Dizia-lhe para pensar com a cabeça e agir com o coração !
- Sim. Estás a ficar mesmo sem tempo.
- Abraça-me , por favor , não vás.
- Aproxima-te, é a tua última oportunidade.
- Posso abraçar-te ?
- Podes tentar.
- E se eu não conseguir ?
- É a tua última oportunidade.
- Está bem.
- Larga-me. Larga-me. Larga-meee. Estás-me a esmagar !
- Consegui!
- Quem sou eu ?
- Tu és eu, és uma parte de mim, és o meus sentimentos, as minhas memórias... O meu coração.
- Sim.
- Então e agora ?
- Agora é contigo.
- Nao vou morrer ?
- Nao sei.
- Como assim !? EU ACERTEI !
- Não depende de mim agora.
- Depende de quem ?
- De ti.
- De mim ?
- Sim, já não sou tu.
- Não ?
- Não. Diz-me o que te faz querer viver.
- Ela. Se eu acordar, eu não vou ser de mais ninguém, só vou ser dela. Ela é a única coisa que me faz querer viver.
- "O Amor é fogo."
- É , já tinha ouvido dizer.
- Não se brinca com o fogo.
- Eu brinquei ?
- Hum, hum.
- Desculpa.
- Estás a falar sozinho.
- Estou a fazer o quê ?
- Estás a falar sozinho.
- Para onde é que foste ?
- Para lado nenhum. Desculpa-te.
- Desculpo-me ?
- Sim, perdoa-te.
- Apareceu aqui uma cama.
- Estás a voltar à realidade.
- Porque estás a falar baixinho ?
- Perdoa-te, luta. Não vais morrer. Não deixes que o fogo se apague.
- Vais-me deixar ?
- Acorda.
By: Fernão Lobo
- Onde é que vamos ?
- Vamos onde quiseres, estas num táxi.
- Num táxi ?
- Sim estúpido, isto é um sonho, e eu sou o teu táxi. Onde queres ir ?
- Hã ? Então isso quer dizer que eu estou a falar para um carro ?
- Já te disse, isto é um sonho, um sonho teu, e estás a conduzir um táxi. Eu sou o teu táxi.
- Então eu estou a falar para mim mesmo ?
- Olha, e se parasses de fazer perguntas e escolhesses um sítio para ires, hum ?
- Ok, ok...
- Então... Vai ser para onde ?
- Sei lá, pode ser qualquer sítio ?
- Diz-me onde queres ir e eu vejo se te posso lá levar.
- Bem, sempre quis ir a Tóquio !
- Tóquio ? Não podes ir a Tóquio.
- Não posso ir a Tóquio ? Porque é que nao posso ir a Tóquio ?
- Porque nunca lá foste.
- Eu sei que nunca lá fui é por isso que quero lá ir !
- Não estás a captar a essência do sonho, burro.
- Pronto , eu digo outro sítio.
- Desta vez pensa melhor.
- Londres. Londres pode ser nao pode ?
- Pode, já lá fomos nao ja ?
- Sim, com ela... Bons velhos tempos...
- Lembraste-me como foi ?
- Sim.
- Queres falar sobre isso ?
- Não.
- Porque não ? Pensei que já tinha cicratizado.
- Cicatrizado ?
- Sim, a ferida que ela me causou.
- Mas afinal quem és tu ?
- Eu ? Não tenho um nome definido, eu sou tu.
- Mas isto não é um sonho ?
- Precisamente.
- Então se eu sou eu , como é que tu podes ser eu ?
- Porque eu sou parte de ti.
- Sim, realmente sinto-me mais leve.
- Deixa de ser engraçadinho. Vais ter de ser tu a adivinhar.
- És a minha pila.
- Pára com isso.
- Já sei ! És o esquerdo !
- És tão porco.
- Não, tu é que és, porque tu és eu , segundo o que me estás a dizer.
- Não sou essa tua parte.
- Ainda bem, não me quero ver livre dessa parte de mim.
- Mas tu nunca pensas em mais nada ?
- Se és realmente eu como afirmas ser, já devias saber...
- EU SOU TU , COM MIL RAIOS! És capaz de te concentrar ?
- Porque é que paramos ?
- Já chegamos onde querias chegar.
- Que jardim é este ? Eu conheço este jardim.
- Claro que conheces. Sai de cima de mim.
- Como assim ?
- Sai de cima de mim, sai do taxi , sai lá para fora, vai apanhar ar , qualquer coisa, SAI!
- Tu és um stressado, tambem... Calma, calma ! Já saio.
- Não sou. Tu és.
- Ela está ali.
- Pois está.
- Tem uma coisa para mim.
- Pois tem.
- É um ramo enorme...
- Pois é.
- E esta vestida como ela sabe que eu adoro.
- Pois sabe.
- Adoro os olhos dela...
- São mesmo bonitos não são ?
- São, mesmo castanhos são os mais bonitos de todos.
- Ela parece tão... Impaciente.
- E está, tu sabes que está.
- E porquê ?
- Tu sabes porquê.
- Sei ? Adoro os caracóis dela...
- São mesmo maravilhosos não são ?
- Pois são.
- Costumavam cheirar tão bem...
- Lembraste de como era acordar com eles na cara ? Macios e leves ?
- Não...
- Quem é ela ? Nao te lembras ?
- Não sei bem...
- O que sentes por ela ?
- Ela é perfeita.
- Sim, ela é perfeita.
- O que me aconteceu ?
- Já descobriste quem eu sou ?
- Não. Não tou a perceber nada.
- Ai Minha Nossa Senhora dos Remédios... Tu és mesmo burrinho nao és ? Chega-te aqui. Encosta-te ao capô.
- Não me parece.
- Cala-te.
- Tou a ir.
- ENCOSTA-TE !
- Pronto, já está. Adoro o teu humor, a sério.
- Agora espera um pouco.
- O que é isto ?
- Já te lembras dalguma coisa ?
- Sim, eu... Eu amo-a.
- Queres perde-la ?
- Nunca.
- Então tens de descobrir quem eu sou.
- AU! Que foi isso ?
- Foi um choque, para levantares esse rabo gordo de cima de mim.
- Eu não me acredito que estou a ser insultado por um carro.
- Não sou um carro, sou um táxi, sou tu.
- Eu não sou um táxi.
- Então eu tambem não.
- Mas acabaste de dizer que... Oh esquece. Não dá para discutir contigo.
- Contigo !
- Comigo ?
- Sim , contigo, estás a discutir contigo.
- Pára com isso.
- Ainda não fazes a menor ideia quem eu sou ?
- És um estúpido táxi falante que dá choques.
- Já te tinha dito que adorava esse teu humor ?
- Já. Não. Espera... EI! Eu é que te disse isso !
- Não, não.
- Pára , a sério, estas-me a chatear.
- Eu não estou a fazer nada de mal...
- Vou-me embora.
- Vais ? E ela ?
- Ela? Ela paralisou.
- Pois foi.
- Já se está a mexer outra vez.
- Ainda queres ir embora ?
- Não, eu tenho dir ter com ela.
- Não podes tens de descobrir quem eu sou.
- MERDA ! És o meu cerebro ! O meu subconsciente ! Sei lá !
- Quase.
- Quase como assim ?
- Acertaste metade.
- Metade ? Isso quer dizer o quê ?
- Porque é que eu tenho a forma dum táxi ?
- Não é a tua forma original.
- Já estamos a chegar a algum lado.
- Devias ser uma pessoa, pelo menos ter um personagem.
- Bem visto. Espera um pouco.
- TU!? Mana !?
- Qual é o espanto ? Sabes bem que esta voz não é tua, não tens voz de rapariga.
- Tu morreste. Ela morreu , eu vi-a morreu.
- Não está morta no teu coração.
- Não a deixava morrer, ela é a minha irmã.
- Porque não falaste para mim ?
- Porque tu não és ela.
- Quem sou então ?
- Porque tu... és eu.
- Olha para o jardim.
- Ela está a sorrir. Que lindo sorriso.
- Não está a sorrir sem motivo.
- Está a sorrir para alguem. Quase que lhe consigo ouvir o corção, ela está ansiosa.
- Olha para o outro lado da estrada, a chegar à passadeira.
- Sou eu.
- Pois és.
- Eu amo-a. Ela é realmente fantástica, gosto tanto dela.
- Cuidado com o carro miúdo ! És sempre a mesma coisa.
- Eu tenho dir ter com ela.
- Já estás a ir. Estás a atravessar a estrada, olha bem para ali.
- Olha que brasa que eu sou.
- És tao humilde miúdo.
- Ela levantou-se.
- Olha para a tua cara de espanto.
- Eu sabia que ela me ia fazer uma surpresa.
- Mesmo assim fizeste uma cara de espanto.
- Fiquei surpreendido na mesma. Não estava a espera disto dela.
- Ela gosta mesmo de ti, mesmo que não o mostre sempre.
- Consigo arranjar melhor, ela não é boa o suficiente.
- Tu amas-la.
- Pois amo.
- E ela ama-te.
- Pois ama.
- Então porque é que o resto interessa ?
- Não interessa.
- Isso... Não interessa...
- Tens razão, eu amo-a. Acho que...
- Achas o que ?
- Não preciso de mais ninguém além dela. Sou tão feliz só de estar ao lado dela.
- Ela entregou-te o ramo agora mesmo.
- Olha para ela a corar ! Adoro quando ela fica corada...
- Tu dizes-lhes coisas tão bonitas.
- Digo ?
- Dizes. É pena , serem mentiras e graxa.
- O quê ?
- Sim , palavras usadas para todas.
- Não, isso nao é verdade. Eu sinto o que lhe digo.
- Então porque dizes isso a todas ?
- Ela é diferente.
- Ela está a tirar uma coisa do bolso.
- Eu AMO-A ! Como é que podes dizer uma coisa dessas !? Eu amo-a.
- Ela acabou de tirar uma coisa do bolso. Pára de me tentar acertar.
- Não digo isso a todas, com ela é diferente ! Vais levar !
- OLHA!
- O quê ?
- Ela está a pedir-te em casamento.
- Não devia ser ao contrário ?
- Ela não aguenta viver sem ti.
- Eu não sei viver sem ela.
- Então aceita.
- Não sei, não me quero casar já.
- Vais-lhe partir o coração ?
- Nao era capaz.
- Olha bem o que fizeste.
- Nao me acredito.
- Porque é que o fizeste ?
- Tinha medo.
- Olha o que aconteceu.
- Ela esta a ir embora... AU ! EI! Que grande bofetada que ela me deu.
- Mereceste.
- Vou atrás dela.
- Pois vais.
- Ela atravessou para o outro lado da rua.
- Corre.
- Corre! CORRE!
- Tas a falar para quem ? Ele nao te ouve.
- Não ?
- Não.
- Ele vai levar com...
- CUIDADO COM O ...
- Fui atropelado !
- Por um camião TIR.
- Nada bom.
- Nada mesmo.
- Porque é que ficou tudo branco agora ? Até as tuas roupas ?
- Isto é onde estás agora.
- Num sítio gigante , sem horizonte, todo branco ? Com a minha irmã morta ? Não bate certo...
- Não estás aqui mesmo, mesmo. E eu não sou a tua irmã, eu sou tu.
- Estou onde ? Estou morto ?
- Estás.
- Estou !?
- Não.
- Estou a morrer ?
- Estás. Olha para ti.
- Bata azul. Mostra-me onde está o meu corpo.
- Estás em coma. Vais morrer.
- Não quero morrer.
- Mas vais.
- Não há nada que eu possa fazer ?
- Não.
- Então porquê isto ? PORQUÊ !?
- O que é que eu te disse no início da nossa conversa ?
- Como assim ?
- O que é que eu te disse que tinhas de descobrir.
- Quem tu eras.
- Exacto.
- E és o meu subconsciente.
- Os subconscientes nao falam directamente connosco.
- Não estás a falar directamente, eu estou a morrer.
- Pois estás.
- Páras de concordar com o que eu digo ? Já me estas a enervar !
- Como queres que eu nao concorde contigo se eu sou tu ?
- És Deus !? Um anjo !?
- Qual foi a parte do "eu sou tu" que não entendeste miúdo ?
- Ok, se não és Deus nem o meu subconsciente, és o quê ?
- Tu naturalmente não usas essa coisa a que chamas cérebro pois não ?
- Não te vou responder a isso.
- Estás a tremer.
- Não quero morrer.
- Vou-te dar uma pista. O que lhe dizias sempre ?
- Eu ? A quem ? A ela ? Que ela era linda.
- Sim, isso também, mas uma coisa muito importante.
- O quê ?
- Estás a ficar sem tempo.
- AJUDA-ME !
- Não te posso ajudar.
- Dizia-lhe para pensar com a cabeça e agir com o coração !
- Sim. Estás a ficar mesmo sem tempo.
- Abraça-me , por favor , não vás.
- Aproxima-te, é a tua última oportunidade.
- Posso abraçar-te ?
- Podes tentar.
- E se eu não conseguir ?
- É a tua última oportunidade.
- Está bem.
- Larga-me. Larga-me. Larga-meee. Estás-me a esmagar !
- Consegui!
- Quem sou eu ?
- Tu és eu, és uma parte de mim, és o meus sentimentos, as minhas memórias... O meu coração.
- Sim.
- Então e agora ?
- Agora é contigo.
- Nao vou morrer ?
- Nao sei.
- Como assim !? EU ACERTEI !
- Não depende de mim agora.
- Depende de quem ?
- De ti.
- De mim ?
- Sim, já não sou tu.
- Não ?
- Não. Diz-me o que te faz querer viver.
- Ela. Se eu acordar, eu não vou ser de mais ninguém, só vou ser dela. Ela é a única coisa que me faz querer viver.
- "O Amor é fogo."
- É , já tinha ouvido dizer.
- Não se brinca com o fogo.
- Eu brinquei ?
- Hum, hum.
- Desculpa.
- Estás a falar sozinho.
- Estou a fazer o quê ?
- Estás a falar sozinho.
- Para onde é que foste ?
- Para lado nenhum. Desculpa-te.
- Desculpo-me ?
- Sim, perdoa-te.
- Apareceu aqui uma cama.
- Estás a voltar à realidade.
- Porque estás a falar baixinho ?
- Perdoa-te, luta. Não vais morrer. Não deixes que o fogo se apague.
- Vais-me deixar ?
- Acorda.
By: Fernão Lobo
domingo, 11 de abril de 2010
Fluorescent Adolescent
Sexta-feira. Um quarto para as oito. Aulas às oito e meia. O despertador toca.
É mais um dia normal. Levantar, rastejar até à casa de banho, tomar um duche, lavar os dentes, aparar a barba, desodorizante no sovaco e vestir. Sair de casa, chave no bolso, telemóvel na mão, phones nos ouvidos, mochila às costas sem metade dos livros precisos e maço no bolso. Passar pela mercearia, roubar duas maçãs, fugir a correr, entrar no comboio e evitar o pica. Pegar no Zippo, brincar um bocadito, parar na minha estação, ouvir cidade fm, piscar o olho a uma gata, pedir-lhe o número, dar-lhe uma beijoca e dirigir-me à escola. A meio do caminho, fumar um cigarro, olhar para o relógio, encontrar o pessoal, trocar uns abraços, fumar mais um cigarro e ir para a primeira aula. Passar a aula a mandar mensagens à namorada, e às amigas, dizer umas mentiras para a noite correr bem, gozar com o 'stôr, chatear a gaja da frente, pedir para ir à casa de banho para fumar mais um, receber a nega e sair para o intervalo. Passear pela escola, cumprimentar a malta, andar à porrada com o melhor amigo, dar uns toques na bola, dar mais uma passa e entrar na aula. Continuar a mandar mensagens, picar com o 'stôr, mandar umas bocas ao novo casal da turma, irritar o colega certinho do lado, fazer uns rabiscos no caderno, ser apanhado pelo 'stôr, ficar sem o papel, ter de deitar a chiclete fora, ir para a última mesa da sala de castigo, receber mais outra nega e bazar para intervalo. Beber um café no bar, comer um croissant a acompanhar, comprar umas chicletes para chatear a próxima 'stôra e voltar para o fundo da sala. Dizer à namorada que ela é tudo, dizer às amigas que tou farto da namorada, rebentar umas bolas mesmo alto para distrair toda a gente, mandar vir com a 'stôra, deitar a chiclete ao lixo, por outra chiclete à boca, continuar a fazer balões, ser mandado para a rua, fumar um cigarro, esperar pelo toque, ouvir música, ouvir o toque, ir buscar a mochila, ir mijar, juntar-se ao pessoal e sair da escola. Comer uma pizza, beber uma coca-cola, socializar na esplanda, apanhar Sol, fumar um cigarrinho, voltar para a escola, jogar uma futebolada e chegar atrasado à aula. Passar a aula a fazer merda com o projecto, estragar o projecto dos outros, atirar giz à 'stôra, dizer que foi o colega de trás, vê-lo a levar com as culpas, tirar umas fotos ao rêgo da gorda da frente, rir a altos berros com o melhor amigo, levar um sermão da stora e sair da sala. Correr para a casa da praia do amigo, pegar na prancha, nos pés de pato, nos calções e no fato e apanhar umas ondas. Deixar o mar, secar o cabelo, despir o fato, apanhar um solinho e comer as mãças. Dizer à namorada que me atrasei, apanhar o comboio, discutir com o pica, pedir um número a um avião acabado de aterrar mesmo à minha frente, sair do comboio, ajeitar o cabelo, cheirar o sovaco, por os phones aos ouvidos, o capuz na cabeça e seguir para casa da namorada. Trocar uns beijos, dar uma foda, fumar um cigarrinho nas escadas de incendio com ela, ouvir o pai dela a chegar, pegar na camisola e fugir pela janela. Caminhar para casa, passar na mercearia, roubar outra maçã, chegar a casa, ir ao pc, aceitar os comentários no hi5, ver que há um comentário duma gaja nova, reparar que já a conhecia dalgum lado, pedir-lhe o número e ir jantar. Chatear-me com o pai, discutir com a mãe, brincar com o irmão mais novo, picar a irmã mais velha, deitar-me no sofa, ver TV, mandar mensagem à namorada a dizer que vou dormir e mandar às amigas a dizer que estou para sair. Vestir-me, perfumar-me, arranjar-me, sair de casa, encontrar o pessoal à porta da discoteca, por o braço no ombro duma gaja, falar com o porteiro, entrar com a gaja, beber uns shots com a malta, comer a gaja, dançar até doer os pés, fumar mais cinco cigarros, comer outra gaja, beber mais uns shots, comer a primeira gaja, sacar o preservativo da carteira, dá-lo a gaja, ir para a casa de banho, foder a gaja, pagar uma rodada a malta, fumar mais um cigarro, dançar até cair para o lado, gregar tudo e dormir nas esacadas do bar da praia. Acordar com um escaldão, voltar para casa, dormir a tarde toda.
Vida dura.
By: Fernão Lobo
É mais um dia normal. Levantar, rastejar até à casa de banho, tomar um duche, lavar os dentes, aparar a barba, desodorizante no sovaco e vestir. Sair de casa, chave no bolso, telemóvel na mão, phones nos ouvidos, mochila às costas sem metade dos livros precisos e maço no bolso. Passar pela mercearia, roubar duas maçãs, fugir a correr, entrar no comboio e evitar o pica. Pegar no Zippo, brincar um bocadito, parar na minha estação, ouvir cidade fm, piscar o olho a uma gata, pedir-lhe o número, dar-lhe uma beijoca e dirigir-me à escola. A meio do caminho, fumar um cigarro, olhar para o relógio, encontrar o pessoal, trocar uns abraços, fumar mais um cigarro e ir para a primeira aula. Passar a aula a mandar mensagens à namorada, e às amigas, dizer umas mentiras para a noite correr bem, gozar com o 'stôr, chatear a gaja da frente, pedir para ir à casa de banho para fumar mais um, receber a nega e sair para o intervalo. Passear pela escola, cumprimentar a malta, andar à porrada com o melhor amigo, dar uns toques na bola, dar mais uma passa e entrar na aula. Continuar a mandar mensagens, picar com o 'stôr, mandar umas bocas ao novo casal da turma, irritar o colega certinho do lado, fazer uns rabiscos no caderno, ser apanhado pelo 'stôr, ficar sem o papel, ter de deitar a chiclete fora, ir para a última mesa da sala de castigo, receber mais outra nega e bazar para intervalo. Beber um café no bar, comer um croissant a acompanhar, comprar umas chicletes para chatear a próxima 'stôra e voltar para o fundo da sala. Dizer à namorada que ela é tudo, dizer às amigas que tou farto da namorada, rebentar umas bolas mesmo alto para distrair toda a gente, mandar vir com a 'stôra, deitar a chiclete ao lixo, por outra chiclete à boca, continuar a fazer balões, ser mandado para a rua, fumar um cigarro, esperar pelo toque, ouvir música, ouvir o toque, ir buscar a mochila, ir mijar, juntar-se ao pessoal e sair da escola. Comer uma pizza, beber uma coca-cola, socializar na esplanda, apanhar Sol, fumar um cigarrinho, voltar para a escola, jogar uma futebolada e chegar atrasado à aula. Passar a aula a fazer merda com o projecto, estragar o projecto dos outros, atirar giz à 'stôra, dizer que foi o colega de trás, vê-lo a levar com as culpas, tirar umas fotos ao rêgo da gorda da frente, rir a altos berros com o melhor amigo, levar um sermão da stora e sair da sala. Correr para a casa da praia do amigo, pegar na prancha, nos pés de pato, nos calções e no fato e apanhar umas ondas. Deixar o mar, secar o cabelo, despir o fato, apanhar um solinho e comer as mãças. Dizer à namorada que me atrasei, apanhar o comboio, discutir com o pica, pedir um número a um avião acabado de aterrar mesmo à minha frente, sair do comboio, ajeitar o cabelo, cheirar o sovaco, por os phones aos ouvidos, o capuz na cabeça e seguir para casa da namorada. Trocar uns beijos, dar uma foda, fumar um cigarrinho nas escadas de incendio com ela, ouvir o pai dela a chegar, pegar na camisola e fugir pela janela. Caminhar para casa, passar na mercearia, roubar outra maçã, chegar a casa, ir ao pc, aceitar os comentários no hi5, ver que há um comentário duma gaja nova, reparar que já a conhecia dalgum lado, pedir-lhe o número e ir jantar. Chatear-me com o pai, discutir com a mãe, brincar com o irmão mais novo, picar a irmã mais velha, deitar-me no sofa, ver TV, mandar mensagem à namorada a dizer que vou dormir e mandar às amigas a dizer que estou para sair. Vestir-me, perfumar-me, arranjar-me, sair de casa, encontrar o pessoal à porta da discoteca, por o braço no ombro duma gaja, falar com o porteiro, entrar com a gaja, beber uns shots com a malta, comer a gaja, dançar até doer os pés, fumar mais cinco cigarros, comer outra gaja, beber mais uns shots, comer a primeira gaja, sacar o preservativo da carteira, dá-lo a gaja, ir para a casa de banho, foder a gaja, pagar uma rodada a malta, fumar mais um cigarro, dançar até cair para o lado, gregar tudo e dormir nas esacadas do bar da praia. Acordar com um escaldão, voltar para casa, dormir a tarde toda.
Vida dura.
By: Fernão Lobo
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Sem Luar
Trindade, inícios de Dezembro ou fins de Novembro, não sei precisar. Não estava um dia particularmente frio, e a paragem nem sequer se encontrava sobrelotada como seria de esperar àquela hora. Apenas uma dúzia de pessoas preenchiam os bancos de pedra cinzenta polida que habitavam a paragem. Tal como elas, eu também me encontrava encostado a parede cinzenta, sentado num banco cinzento, a olhar para o fumo cinzento que florescia da ponta do meu cigarro. Ouvi a coluna cinzenta a debitar qualquer coisa que não decifrei. Sabia que era o meu metro que se aproximava, era sempre o meu metro a passar naquele lado da linha. Afinal qualquer metro servia para ser o meu metro.
Apaguei o meu cigarro na sola da minha sapatilha e esperei até que a última fibra luminosa de tabaco ficasse negra. Então decidi tirar o meu mp3, colocar a playlist no modo random e esperar que não me saísse uma música pesada, porque era isso a última coisa que eu percisava. Uprising dos Muse, nao era de todo o que eu estava à espera. Mas era mesmo o que eu estava a precisar. Mesmo antes de me levantar do banco fingi ajeitar um cordão e colei a trident debaixo do banco cinzento. Três passos largos e entrei no maquinão. Sentei-me perto da janela, apesar de estar escuro, a vista da Ponte D. Luis era sempre maravilhosa. O metro chiou por tudo o que era canto e com um solavanco característico arrancou na sua viagem ate D. João II.
Ouvi o sinal de falta de bateria e mal parei em S. Bento, mesmo quando a música acabou, entrou um casal que me deixou curioso e o meu mp3 desligou-se. O rapaz era alto, um metro e oitenta e cinco talvez, cabelo grande até aos ombros, muitos despenteado com uns jeitos para a esquerda, castanho claro. Parecia chateado e amedrontado ao mesmo tempo, quase como se estivesse prestes a explodir, mas como se isso fosse a última coisa que ele quisesse fazer. O metro deu outro solavanco e acelarou em direcção à ponte, chilreando. Trazia vestido umas calças de ganga escura no fundo do traseiro, e um casaco verde da billabong , cheio de letras pretas e brancas, aberto no peito onde morava uma camisola totalmente branca. No fundo das calças largas viam-se umas botas todas brancas com o símbolo do mesmo verde que o casaco. A locomotiva abrandou a velocidade, tinhamos chegado à ponte. A noite inundou a paisagem , via-se o rio iluminado pelas luzes dos candeeiros e do movimento da cidade, mas não havia mais nada que iluminasse a noite. Faltava qualquer coisa cinzenta, brilhante e redonda, mas não me lembrava do quê. No céu não havia nuvens , nem estrelas, so escuridao e vazio. O rapaz encostou-se a um acento mantendo sempre o olhar distante e preocupado. A rapariga encostou-se a ele e abraçou-o. Era baixinha, um metro e sessenta provavelmente; não, um e cinquenta e nove. Tentava captar a atenção do rapaz, fixava-lhe a cara com uns olhos esperançosos e tremendamente possuídos pela insegurança enquanto o agarrava pela cintura. Tinha umas calças de ganga claras, justas às bonitas pernas, que lhe tonificavam as curvas. Também calçava umas botas, mas totalmente diferentes das do rapaz: umas timberland castanho escuro, completamente comuns que a faziam um pouco mais alta do que ela realmente era. No corpo , trazia um top verde azulado, aquela cor que ninguém sabe bem descrever, com dois ou tres botões no meio do peito, junto ao decote. Nessa zona, contrariamente a todo o resto do corpo, não era bem dotada. Por cima do fino top, vestia um casaco branco , já sujo nalgumas pontas, demonstrando que já tinha andado a "servir de vassoura" .
Ding-Dong "Morro". A claridade aumentou quando atingimos a minha penúltima paragem. Aquela zona era muito aberta e luminosa, e não passavam carros deste lado do jardim. Entraram duas velhinhas. Entretanto guardei o meu mp3 no bolso e recolhi os phones juntamente. Mais uma vez ia ter de ir à mercearia comprar pilhas, e tinha de me lembrar disto amanhã antes de ir trabalhar, outra vez. Com o típico solavanco de aceralação da máquina, a rapariga ficou muito próxima do rapaz, e tocou-lhe com a mão no rosto. O rapaz afastou a cara rapidamente e moriscou o lábio, quase como se estivesse a evitar derramar uma lágrima. Notava no seu rosto que estava em profunda dor, e que estava a dar tudo para a suportar sozinho. A rapariga no entanto não sabia como o atingir, como se um abismo gigante se tivesse aberto entre eles. Vi um arrepio a percorrer-lhe a espinha quando o rapaz afastou a cara da sua mão. Ela encostou-se ao seu peito, e voltou a abraça-lo com toda o furor que conseguiu, tentando mostrar o quao preocupada estava com a angústia do seu rapaz. Lá conseguiu que o rapaz se demonstrasse menos arrogante e pousasse o queixo moreno na sua cabeça pintada pelo loiro acastanhado dos seus cabelos. O rapaz abraçou-a também, como um acto de desespero. Ouvi-o soluçar e uma lágrima salgada escorregou-lhe do canto do olho terminando no lábio. A experessão mudou totalmente. Parecia que o rosto todo se ia desmanchar em lágrimas, uma cara totalmente horriíel, que lhe terminou toda a beleza original. Contudo tal visão nao foi prelongada, pois mal a rapariga o largou a sua cara voltou a original: dentes cerrados, a conter a dor que sentia.
Ding-Dong , "General Torres, ligação com comboios."
Havia chegado ao meu destino. Agora era a parte mais aborrecida do meu dia. O comboio para Espinho só partia meia hora depois, e eu já estava na estação. Saí do metro e percorri o jardim. Dirigi-me à máquina dos bilhetes, depois de ter descido uns bons três ou quatro lances de escadas cinzentas, e escolhi o meu destino. Enquanto esperava que o bilhete fosse impresso olhei calmamente em meu redor. Ali, não se encontrava ninguém além de mim. Recolhi o bilhete e sentei-me num banco verde. O silêncio daquelas paredes era arrepiante. Não se ouvia qualquer murmurar, ou até mesmo passos, ou um mísero barulho dum insecto a voar. Alguma coisa estava errada naquele dia. Fechei os olhos e temi adormecer ali , esperando que o risco de perder a minha boleia para casa me mantesse desperto. Inesperademente, não foi preciso muito tempo até que alguém chegasse ao sítio onde eu me encontrava e me impedisse de adormecer. Para meu espanto , era o bonito casal de míudos que tinha encontrado no metropolitano. Mas o quadro era totalmente diferente. O rapaz andava a passos rápidos, com o rosto lavado em lágrimas, e a rapariga com os seus passos de bailarina tentava alcança-lo. Conseguiu-o mesmo na minha frente. Ambos pareciam ignorar a minha presença, agindo como se estivessem sozinhos. A rapariga agarrou-lhe o braço e puxou-o para que ele ficasse de frente para ela. O rapaz olhou-a furioso, e ela pediu-lhe ternamente que lhe falasse. Ambos conversaram durante uns bons minutos, e era palpável o clima de ferida que aumentava a cada segundo. As palavras do rapaz pareciam arracandas a ferros como se estivesse a dizer as palavras erradas, ou a mentir. No entanto tentava mostrar convicção no que dizia, apesar de falhar ao faze-lo , pois largava pequenos soluços de vez a vez. A rapariga ouvia-o como se de lei se tratasse , não duvidando um pouco da veracidade dos vocábulos, mas expressando tremenda dificuldade em acreditar no que ouvia. Nao fui capaz de perceber muito bem a conversa, mas lembro-me de ouvir o rapaz dizer: "Disseste-me um milhão de vezes que as coisas nunca mais iam voltar a ser o que eram. Bem, então não percebo porque estás assim, as coisas nunca mais vão voltar a ser o que eram.". Nessa altura, a cara da rapariga foi completamente assaltada pela fúria e ela atacou: "eu devia dar-te uma chapada agora.". O rapaz não pareceu muito preocupado, pelo seu físico seria capaz de evitar a chapada facilmente. Era bem visível que o rapaz tentava afastar a rapariga dele, do coração dele, mas não queria que isso acontecesse na realidade. Já a rapariga parecia totalmente indecisa, perdida com que tinha acabado de ouvir. Nas calças dela vibrou o aparelho mais usado no dia-a-dia adolescente. Olhou-o e viu que era alguém importante. O rapaz ergueu as sobrancelhas e suspirou de tédio quando ela atendeu a chamada. Limpou as lagrimas às mangas da camisola e cruzou os braços no peito enquanto esperou que a rapariga despachesse quem quer que fosse. Entendiado com a pausa na acção, levantei-me e decidi ir comprar umas chicletes ao cafézinho da estação, abandonando os dois jovens. Para minha insatisfação, o café encontrava-se fechado, mas aproveitei para ir la fora fumar um cigarro. A escuridão no exterior era terrivel, assustadora, como se alguma coisa estivesse a sugar toda a luz. Os candeiiros não estavam a funcionar naquela entrada da estação e o pequeno largo nao apresentava qualquer sinal de luminosiadade. Hesitei ao atravessar a porta que me levaria para aquele silêncio estremecedor, mas o vício do tabaco venceu a falta de coragem e saí. Tentei novamente encontrar a Lua. Falhei ao fazê-lo, constatei que nesse dia, nem estrelas, nem lua, nem sequer nuvens povoavam o céu. Era uma noite vazia, escura, noite de Lua Nova. Observei todo o fumo exalado a sair-me dos pulmões pela boca, assim como o mingar do cigarro. Quando já só sobrava o filtro na minha mão, atirei-o para longe e voltou a ficar tudo negro. Olhei o meu relógio e verifiquei que ainda tinha dez minutos, portanto, e já que nao tinha nada com que me entreter naquele vazio, decidi voltar para dentro calmamente. Dirigi-me serenamente à entrada, em total silêncio. Uma fracção de segundo depois ouvi um ecoar de passos rápidos e vi outra vez o casal. Desta vez o rapaz tinha a manga levantada, e conseguia-lhe distinguir uma pulseira castanha no pulso moreno. A rapariga vinha em frente e cruzou-me ignorando-me totalmente. Atrás dela, o rapaz movia-se com o braço esticado tentando alcançar o dela. Também este pareceu ignorar o facto de eu lá estar e quase se esbarrou comigo, desviando-se a escassos centímetros do meu corpo. Ambos choravam. Pararam mesmo a entrada da estação, trocaram poucas palavras. Distingui apenas: "Eu amo-te. Sabes bem que te amo." da boca dele. "Se realmente me amas como dizes, vais fazer a escolha certa." ripostou ela ferozmente. Ouvindo isto fiquei curioso de como ia acabar. Os jovens encontravam junto à saída, guardando o final do seu encontro para a luz da estação cinzenta. Depois de dito isto , ainda trocaram mais umas palavras , indecifraveis para mim, mas sentia-lhes o doce e forte sentimento com que eram proferidas. Por fim, despediu-se dele com um beijo violento e com uma pancada sêca de punho cerrado no peito. O rapaz pareceu solidificar, o olhar direccionado para o vazio. A rapariga tinha transposto a porta e desaparecia na escuridão sem luar.
Deixei-o lá sozinho, achei que fosse mais fácil para os dois. A seguir voltei para o meu lugar na estação. Sentado no banco cinzento, rodeado de paredes cinzentas, e ouvi a coluna cinzenta a anunciar o meu comboio...
By: Fernão Lobo
Apaguei o meu cigarro na sola da minha sapatilha e esperei até que a última fibra luminosa de tabaco ficasse negra. Então decidi tirar o meu mp3, colocar a playlist no modo random e esperar que não me saísse uma música pesada, porque era isso a última coisa que eu percisava. Uprising dos Muse, nao era de todo o que eu estava à espera. Mas era mesmo o que eu estava a precisar. Mesmo antes de me levantar do banco fingi ajeitar um cordão e colei a trident debaixo do banco cinzento. Três passos largos e entrei no maquinão. Sentei-me perto da janela, apesar de estar escuro, a vista da Ponte D. Luis era sempre maravilhosa. O metro chiou por tudo o que era canto e com um solavanco característico arrancou na sua viagem ate D. João II.
Ouvi o sinal de falta de bateria e mal parei em S. Bento, mesmo quando a música acabou, entrou um casal que me deixou curioso e o meu mp3 desligou-se. O rapaz era alto, um metro e oitenta e cinco talvez, cabelo grande até aos ombros, muitos despenteado com uns jeitos para a esquerda, castanho claro. Parecia chateado e amedrontado ao mesmo tempo, quase como se estivesse prestes a explodir, mas como se isso fosse a última coisa que ele quisesse fazer. O metro deu outro solavanco e acelarou em direcção à ponte, chilreando. Trazia vestido umas calças de ganga escura no fundo do traseiro, e um casaco verde da billabong , cheio de letras pretas e brancas, aberto no peito onde morava uma camisola totalmente branca. No fundo das calças largas viam-se umas botas todas brancas com o símbolo do mesmo verde que o casaco. A locomotiva abrandou a velocidade, tinhamos chegado à ponte. A noite inundou a paisagem , via-se o rio iluminado pelas luzes dos candeeiros e do movimento da cidade, mas não havia mais nada que iluminasse a noite. Faltava qualquer coisa cinzenta, brilhante e redonda, mas não me lembrava do quê. No céu não havia nuvens , nem estrelas, so escuridao e vazio. O rapaz encostou-se a um acento mantendo sempre o olhar distante e preocupado. A rapariga encostou-se a ele e abraçou-o. Era baixinha, um metro e sessenta provavelmente; não, um e cinquenta e nove. Tentava captar a atenção do rapaz, fixava-lhe a cara com uns olhos esperançosos e tremendamente possuídos pela insegurança enquanto o agarrava pela cintura. Tinha umas calças de ganga claras, justas às bonitas pernas, que lhe tonificavam as curvas. Também calçava umas botas, mas totalmente diferentes das do rapaz: umas timberland castanho escuro, completamente comuns que a faziam um pouco mais alta do que ela realmente era. No corpo , trazia um top verde azulado, aquela cor que ninguém sabe bem descrever, com dois ou tres botões no meio do peito, junto ao decote. Nessa zona, contrariamente a todo o resto do corpo, não era bem dotada. Por cima do fino top, vestia um casaco branco , já sujo nalgumas pontas, demonstrando que já tinha andado a "servir de vassoura" .
Ding-Dong "Morro". A claridade aumentou quando atingimos a minha penúltima paragem. Aquela zona era muito aberta e luminosa, e não passavam carros deste lado do jardim. Entraram duas velhinhas. Entretanto guardei o meu mp3 no bolso e recolhi os phones juntamente. Mais uma vez ia ter de ir à mercearia comprar pilhas, e tinha de me lembrar disto amanhã antes de ir trabalhar, outra vez. Com o típico solavanco de aceralação da máquina, a rapariga ficou muito próxima do rapaz, e tocou-lhe com a mão no rosto. O rapaz afastou a cara rapidamente e moriscou o lábio, quase como se estivesse a evitar derramar uma lágrima. Notava no seu rosto que estava em profunda dor, e que estava a dar tudo para a suportar sozinho. A rapariga no entanto não sabia como o atingir, como se um abismo gigante se tivesse aberto entre eles. Vi um arrepio a percorrer-lhe a espinha quando o rapaz afastou a cara da sua mão. Ela encostou-se ao seu peito, e voltou a abraça-lo com toda o furor que conseguiu, tentando mostrar o quao preocupada estava com a angústia do seu rapaz. Lá conseguiu que o rapaz se demonstrasse menos arrogante e pousasse o queixo moreno na sua cabeça pintada pelo loiro acastanhado dos seus cabelos. O rapaz abraçou-a também, como um acto de desespero. Ouvi-o soluçar e uma lágrima salgada escorregou-lhe do canto do olho terminando no lábio. A experessão mudou totalmente. Parecia que o rosto todo se ia desmanchar em lágrimas, uma cara totalmente horriíel, que lhe terminou toda a beleza original. Contudo tal visão nao foi prelongada, pois mal a rapariga o largou a sua cara voltou a original: dentes cerrados, a conter a dor que sentia.
Ding-Dong , "General Torres, ligação com comboios."
Havia chegado ao meu destino. Agora era a parte mais aborrecida do meu dia. O comboio para Espinho só partia meia hora depois, e eu já estava na estação. Saí do metro e percorri o jardim. Dirigi-me à máquina dos bilhetes, depois de ter descido uns bons três ou quatro lances de escadas cinzentas, e escolhi o meu destino. Enquanto esperava que o bilhete fosse impresso olhei calmamente em meu redor. Ali, não se encontrava ninguém além de mim. Recolhi o bilhete e sentei-me num banco verde. O silêncio daquelas paredes era arrepiante. Não se ouvia qualquer murmurar, ou até mesmo passos, ou um mísero barulho dum insecto a voar. Alguma coisa estava errada naquele dia. Fechei os olhos e temi adormecer ali , esperando que o risco de perder a minha boleia para casa me mantesse desperto. Inesperademente, não foi preciso muito tempo até que alguém chegasse ao sítio onde eu me encontrava e me impedisse de adormecer. Para meu espanto , era o bonito casal de míudos que tinha encontrado no metropolitano. Mas o quadro era totalmente diferente. O rapaz andava a passos rápidos, com o rosto lavado em lágrimas, e a rapariga com os seus passos de bailarina tentava alcança-lo. Conseguiu-o mesmo na minha frente. Ambos pareciam ignorar a minha presença, agindo como se estivessem sozinhos. A rapariga agarrou-lhe o braço e puxou-o para que ele ficasse de frente para ela. O rapaz olhou-a furioso, e ela pediu-lhe ternamente que lhe falasse. Ambos conversaram durante uns bons minutos, e era palpável o clima de ferida que aumentava a cada segundo. As palavras do rapaz pareciam arracandas a ferros como se estivesse a dizer as palavras erradas, ou a mentir. No entanto tentava mostrar convicção no que dizia, apesar de falhar ao faze-lo , pois largava pequenos soluços de vez a vez. A rapariga ouvia-o como se de lei se tratasse , não duvidando um pouco da veracidade dos vocábulos, mas expressando tremenda dificuldade em acreditar no que ouvia. Nao fui capaz de perceber muito bem a conversa, mas lembro-me de ouvir o rapaz dizer: "Disseste-me um milhão de vezes que as coisas nunca mais iam voltar a ser o que eram. Bem, então não percebo porque estás assim, as coisas nunca mais vão voltar a ser o que eram.". Nessa altura, a cara da rapariga foi completamente assaltada pela fúria e ela atacou: "eu devia dar-te uma chapada agora.". O rapaz não pareceu muito preocupado, pelo seu físico seria capaz de evitar a chapada facilmente. Era bem visível que o rapaz tentava afastar a rapariga dele, do coração dele, mas não queria que isso acontecesse na realidade. Já a rapariga parecia totalmente indecisa, perdida com que tinha acabado de ouvir. Nas calças dela vibrou o aparelho mais usado no dia-a-dia adolescente. Olhou-o e viu que era alguém importante. O rapaz ergueu as sobrancelhas e suspirou de tédio quando ela atendeu a chamada. Limpou as lagrimas às mangas da camisola e cruzou os braços no peito enquanto esperou que a rapariga despachesse quem quer que fosse. Entendiado com a pausa na acção, levantei-me e decidi ir comprar umas chicletes ao cafézinho da estação, abandonando os dois jovens. Para minha insatisfação, o café encontrava-se fechado, mas aproveitei para ir la fora fumar um cigarro. A escuridão no exterior era terrivel, assustadora, como se alguma coisa estivesse a sugar toda a luz. Os candeiiros não estavam a funcionar naquela entrada da estação e o pequeno largo nao apresentava qualquer sinal de luminosiadade. Hesitei ao atravessar a porta que me levaria para aquele silêncio estremecedor, mas o vício do tabaco venceu a falta de coragem e saí. Tentei novamente encontrar a Lua. Falhei ao fazê-lo, constatei que nesse dia, nem estrelas, nem lua, nem sequer nuvens povoavam o céu. Era uma noite vazia, escura, noite de Lua Nova. Observei todo o fumo exalado a sair-me dos pulmões pela boca, assim como o mingar do cigarro. Quando já só sobrava o filtro na minha mão, atirei-o para longe e voltou a ficar tudo negro. Olhei o meu relógio e verifiquei que ainda tinha dez minutos, portanto, e já que nao tinha nada com que me entreter naquele vazio, decidi voltar para dentro calmamente. Dirigi-me serenamente à entrada, em total silêncio. Uma fracção de segundo depois ouvi um ecoar de passos rápidos e vi outra vez o casal. Desta vez o rapaz tinha a manga levantada, e conseguia-lhe distinguir uma pulseira castanha no pulso moreno. A rapariga vinha em frente e cruzou-me ignorando-me totalmente. Atrás dela, o rapaz movia-se com o braço esticado tentando alcançar o dela. Também este pareceu ignorar o facto de eu lá estar e quase se esbarrou comigo, desviando-se a escassos centímetros do meu corpo. Ambos choravam. Pararam mesmo a entrada da estação, trocaram poucas palavras. Distingui apenas: "Eu amo-te. Sabes bem que te amo." da boca dele. "Se realmente me amas como dizes, vais fazer a escolha certa." ripostou ela ferozmente. Ouvindo isto fiquei curioso de como ia acabar. Os jovens encontravam junto à saída, guardando o final do seu encontro para a luz da estação cinzenta. Depois de dito isto , ainda trocaram mais umas palavras , indecifraveis para mim, mas sentia-lhes o doce e forte sentimento com que eram proferidas. Por fim, despediu-se dele com um beijo violento e com uma pancada sêca de punho cerrado no peito. O rapaz pareceu solidificar, o olhar direccionado para o vazio. A rapariga tinha transposto a porta e desaparecia na escuridão sem luar.
Deixei-o lá sozinho, achei que fosse mais fácil para os dois. A seguir voltei para o meu lugar na estação. Sentado no banco cinzento, rodeado de paredes cinzentas, e ouvi a coluna cinzenta a anunciar o meu comboio...
By: Fernão Lobo
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Olhos de Água
Cinco e meia da manhã. Levantei-me do banco e olhei para o retrovisor da carrinha, com a bochecha a ser esmagada contra o vidro frio. Ao início não vi nada senão uma luz intensa, alaranjada. Adorava tanto aquilo. Aquela praia, aquele Sol, o ar era fresco, a manhã laranja, o mar azul escuro, profundo, sem destino. Não me recordava de nenhuma má memória deste lugar. Talvez nem existisse. Abri a porta e resvalei para o fora da Pão de forma. As minhas mãos tocaram a terra fria , e entralaçaram-se nos dente de leão amarelos que cresciam no cimo da falésia. Deixei a minha cabeça tombar para fora do carro e olhei para o horizonte. Não sabia descrevê-lo. Estava confuso, ao contrário. O céu tomava o lugar do mar, e o mar o lugar do céu. O Sol , no centro, dava cor a tudo isto, mostrando toda a sua majestosidade alaranjada. As nuvens no ceu pareciam feitas de pura lã, pomposas e aconchegantes navegavando no claro céu sem rumo. Dexei-me cair e as minhas costas tocaram o chão. Senti uma ligeira poeira a pairar e a camisola a ser tingida pela terra. O chão era frio e duro, e senti-me a esmagar uma centena de plantinhas que cresciam junto da nossa carrinha. O meu cabelo gigante e negro, sem qualquer corte nem penteado, encaracolado, misturou-se com os botões amarelos dos dente de leão. Naquele sítio tudo era puro. Podia viver só daquele ar fresco. Inalei o máximo de frescura que pude, e exalei tudo de uma vez, como um suspiro. Ouvi um espécie de deslizar vinda de dentro da carrinha, como se estivessem a por uma agulha sobre um disco de vinil, sabia bem o que se seguia daquilo. A musica começou a tocar bem perto do meu ouvido direito. Era uma melodia calma; o cantor: o rei. Uma espécie de rufus ao início e depois uns sons agudos, seguidos duma excelente melodia. A música transmitia paz. Tal como toda aquela tela. Parecia pintada pelo melhor artista do mundo, uma verdadeira obra-prima, até ao ultimo detalhe. Sem qualquer erro, ou engano, sem qualquer falha, simplesmente, perfeito. Magnífico. A brisa matinal levantava pequenos grãos de areia, misturados com o sal e com a humidade. Sentia-os percorrerem-me a face, correndo a minha pele morena, e tocando-me no nariz , cruzando os meus lábios e fazendo-me cócegas no pescoço. Cocei a barbicha que já brotava no fundo do queixo e comichava por todo o lado. Tinha terra nos dedos, nao terra, mas uma espécie de capa suja, como um véu translúcido que me cobria os dedos e me dava a sensação de que estava completamente sujo.
"Don't worry about a thing,
Cause every little thing is gonna be allright.
Singin' Don't worry, about a thing
Cause every little thing, is gonna be allright !"
Já me queimava o rosto. A minha visão já estava mais clara, e eu já conseguia distinguir tudo perfeitamente. Senti-a lá dentro a mexer-se, a aproximar-se. Como sempre o meu coração acelarou, como se estivesse a espera do toque dela, dum sinal, para disparar naquele frenesim louco. O barulho das ondas a bater no fundo da encosta era perfeitamente audível e bastante agradável. Ela ultrapassou a caixa de mudanças e agarrou-me numa perna. Antes mesmo de me tocar, pareceu-me que a mão dela havia disparado milhares de faíscas microscópicas para o meu corpo. Um arrepio percorreu-me o corpo e levantei calmamente o pescoço para a fitar. Ainda não aparecia no meu campo de visão, por isso, com os braços apoiados no chão, levantei-me e olhei melhor para dentro do veículo. O meu coração falhou uma batida quando a vi. Olhava-me com aqueles olhos lindos. Nada era mais bonito que aquele olhar. Com um salto caiu-me em cima, o seu cabelo castanho claro, liso, roçou-me o rosto e eu deixei-me cair novamente na terra fria. Pisava o meu cabelo com as suas mãos delicadas, provocando-me um pouco de desconforto. Esbocei uma careta e rapidamente ela corrigiu a sua posição colacando cada mão de cada lado do meu rosto. Pisquei os olhos. E mesmo antes de os abrir senti os lábios dela beijarem os meus. O meu coração atingiu a velocidade máxima numa fracção de segundo. Ela tinha aquele efeito em mim, nunca o iria saber descrever, era indescritível, completamente absurdo, talvez nem existisse. Mas preenchia-me e era daquilo que eu vivia.
Ela afastou-se e no meio do meio dos seus cabelos lá estavam aqueles dois olhos brilhantes. Os seus cabelos perfeitos tapavam a luz e conseguia distinguir cada raio a cruza-los e explodir no meu rosto. Subitamente alheei-me de toda aquela paisagem estonteante. Não havia mais nada no meu mundo. Só a queria a ela. Ela era o meu mundo. Bastava ela me dizer que me amava com a sua linda voz doce e melodiosa. Ficamos a olhar-nos durante alguns momentos. Ela sorriu-me e piscou-me o olho, como se de uma provocação se tratasse. Agarrei-lhe o rosto com ambas as mãos e beijei-a com todo a sentimento que sentia. Quando me afastei ela mordia o lábio e fixava os meus olhos com o olhar mais bonito que eu ja tinha visto. Aquilo sim era perfeito. Aqueles Olhos De Água....
By: Fernão Lobo
"Don't worry about a thing,
Cause every little thing is gonna be allright.
Singin' Don't worry, about a thing
Cause every little thing, is gonna be allright !"
Já me queimava o rosto. A minha visão já estava mais clara, e eu já conseguia distinguir tudo perfeitamente. Senti-a lá dentro a mexer-se, a aproximar-se. Como sempre o meu coração acelarou, como se estivesse a espera do toque dela, dum sinal, para disparar naquele frenesim louco. O barulho das ondas a bater no fundo da encosta era perfeitamente audível e bastante agradável. Ela ultrapassou a caixa de mudanças e agarrou-me numa perna. Antes mesmo de me tocar, pareceu-me que a mão dela havia disparado milhares de faíscas microscópicas para o meu corpo. Um arrepio percorreu-me o corpo e levantei calmamente o pescoço para a fitar. Ainda não aparecia no meu campo de visão, por isso, com os braços apoiados no chão, levantei-me e olhei melhor para dentro do veículo. O meu coração falhou uma batida quando a vi. Olhava-me com aqueles olhos lindos. Nada era mais bonito que aquele olhar. Com um salto caiu-me em cima, o seu cabelo castanho claro, liso, roçou-me o rosto e eu deixei-me cair novamente na terra fria. Pisava o meu cabelo com as suas mãos delicadas, provocando-me um pouco de desconforto. Esbocei uma careta e rapidamente ela corrigiu a sua posição colacando cada mão de cada lado do meu rosto. Pisquei os olhos. E mesmo antes de os abrir senti os lábios dela beijarem os meus. O meu coração atingiu a velocidade máxima numa fracção de segundo. Ela tinha aquele efeito em mim, nunca o iria saber descrever, era indescritível, completamente absurdo, talvez nem existisse. Mas preenchia-me e era daquilo que eu vivia.
Ela afastou-se e no meio do meio dos seus cabelos lá estavam aqueles dois olhos brilhantes. Os seus cabelos perfeitos tapavam a luz e conseguia distinguir cada raio a cruza-los e explodir no meu rosto. Subitamente alheei-me de toda aquela paisagem estonteante. Não havia mais nada no meu mundo. Só a queria a ela. Ela era o meu mundo. Bastava ela me dizer que me amava com a sua linda voz doce e melodiosa. Ficamos a olhar-nos durante alguns momentos. Ela sorriu-me e piscou-me o olho, como se de uma provocação se tratasse. Agarrei-lhe o rosto com ambas as mãos e beijei-a com todo a sentimento que sentia. Quando me afastei ela mordia o lábio e fixava os meus olhos com o olhar mais bonito que eu ja tinha visto. Aquilo sim era perfeito. Aqueles Olhos De Água....
By: Fernão Lobo
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