- Liga o carro.
- Onde é que vamos ?
- Vamos onde quiseres, estas num táxi.
- Num táxi ?
- Sim estúpido, isto é um sonho, e eu sou o teu táxi. Onde queres ir ?
- Hã ? Então isso quer dizer que eu estou a falar para um carro ?
- Já te disse, isto é um sonho, um sonho teu, e estás a conduzir um táxi. Eu sou o teu táxi.
- Então eu estou a falar para mim mesmo ?
- Olha, e se parasses de fazer perguntas e escolhesses um sítio para ires, hum ?
- Ok, ok...
- Então... Vai ser para onde ?
- Sei lá, pode ser qualquer sítio ?
- Diz-me onde queres ir e eu vejo se te posso lá levar.
- Bem, sempre quis ir a Tóquio !
- Tóquio ? Não podes ir a Tóquio.
- Não posso ir a Tóquio ? Porque é que nao posso ir a Tóquio ?
- Porque nunca lá foste.
- Eu sei que nunca lá fui é por isso que quero lá ir !
- Não estás a captar a essência do sonho, burro.
- Pronto , eu digo outro sítio.
- Desta vez pensa melhor.
- Londres. Londres pode ser nao pode ?
- Pode, já lá fomos nao ja ?
- Sim, com ela... Bons velhos tempos...
- Lembraste-me como foi ?
- Sim.
- Queres falar sobre isso ?
- Não.
- Porque não ? Pensei que já tinha cicratizado.
- Cicatrizado ?
- Sim, a ferida que ela me causou.
- Mas afinal quem és tu ?
- Eu ? Não tenho um nome definido, eu sou tu.
- Mas isto não é um sonho ?
- Precisamente.
- Então se eu sou eu , como é que tu podes ser eu ?
- Porque eu sou parte de ti.
- Sim, realmente sinto-me mais leve.
- Deixa de ser engraçadinho. Vais ter de ser tu a adivinhar.
- És a minha pila.
- Pára com isso.
- Já sei ! És o esquerdo !
- És tão porco.
- Não, tu é que és, porque tu és eu , segundo o que me estás a dizer.
- Não sou essa tua parte.
- Ainda bem, não me quero ver livre dessa parte de mim.
- Mas tu nunca pensas em mais nada ?
- Se és realmente eu como afirmas ser, já devias saber...
- EU SOU TU , COM MIL RAIOS! És capaz de te concentrar ?
- Porque é que paramos ?
- Já chegamos onde querias chegar.
- Que jardim é este ? Eu conheço este jardim.
- Claro que conheces. Sai de cima de mim.
- Como assim ?
- Sai de cima de mim, sai do taxi , sai lá para fora, vai apanhar ar , qualquer coisa, SAI!
- Tu és um stressado, tambem... Calma, calma ! Já saio.
- Não sou. Tu és.
- Ela está ali.
- Pois está.
- Tem uma coisa para mim.
- Pois tem.
- É um ramo enorme...
- Pois é.
- E esta vestida como ela sabe que eu adoro.
- Pois sabe.
- Adoro os olhos dela...
- São mesmo bonitos não são ?
- São, mesmo castanhos são os mais bonitos de todos.
- Ela parece tão... Impaciente.
- E está, tu sabes que está.
- E porquê ?
- Tu sabes porquê.
- Sei ? Adoro os caracóis dela...
- São mesmo maravilhosos não são ?
- Pois são.
- Costumavam cheirar tão bem...
- Lembraste de como era acordar com eles na cara ? Macios e leves ?
- Não...
- Quem é ela ? Nao te lembras ?
- Não sei bem...
- O que sentes por ela ?
- Ela é perfeita.
- Sim, ela é perfeita.
- O que me aconteceu ?
- Já descobriste quem eu sou ?
- Não. Não tou a perceber nada.
- Ai Minha Nossa Senhora dos Remédios... Tu és mesmo burrinho nao és ? Chega-te aqui. Encosta-te ao capô.
- Não me parece.
- Cala-te.
- Tou a ir.
- ENCOSTA-TE !
- Pronto, já está. Adoro o teu humor, a sério.
- Agora espera um pouco.
- O que é isto ?
- Já te lembras dalguma coisa ?
- Sim, eu... Eu amo-a.
- Queres perde-la ?
- Nunca.
- Então tens de descobrir quem eu sou.
- AU! Que foi isso ?
- Foi um choque, para levantares esse rabo gordo de cima de mim.
- Eu não me acredito que estou a ser insultado por um carro.
- Não sou um carro, sou um táxi, sou tu.
- Eu não sou um táxi.
- Então eu tambem não.
- Mas acabaste de dizer que... Oh esquece. Não dá para discutir contigo.
- Contigo !
- Comigo ?
- Sim , contigo, estás a discutir contigo.
- Pára com isso.
- Ainda não fazes a menor ideia quem eu sou ?
- És um estúpido táxi falante que dá choques.
- Já te tinha dito que adorava esse teu humor ?
- Já. Não. Espera... EI! Eu é que te disse isso !
- Não, não.
- Pára , a sério, estas-me a chatear.
- Eu não estou a fazer nada de mal...
- Vou-me embora.
- Vais ? E ela ?
- Ela? Ela paralisou.
- Pois foi.
- Já se está a mexer outra vez.
- Ainda queres ir embora ?
- Não, eu tenho dir ter com ela.
- Não podes tens de descobrir quem eu sou.
- MERDA ! És o meu cerebro ! O meu subconsciente ! Sei lá !
- Quase.
- Quase como assim ?
- Acertaste metade.
- Metade ? Isso quer dizer o quê ?
- Porque é que eu tenho a forma dum táxi ?
- Não é a tua forma original.
- Já estamos a chegar a algum lado.
- Devias ser uma pessoa, pelo menos ter um personagem.
- Bem visto. Espera um pouco.
- TU!? Mana !?
- Qual é o espanto ? Sabes bem que esta voz não é tua, não tens voz de rapariga.
- Tu morreste. Ela morreu , eu vi-a morreu.
- Não está morta no teu coração.
- Não a deixava morrer, ela é a minha irmã.
- Porque não falaste para mim ?
- Porque tu não és ela.
- Quem sou então ?
- Porque tu... és eu.
- Olha para o jardim.
- Ela está a sorrir. Que lindo sorriso.
- Não está a sorrir sem motivo.
- Está a sorrir para alguem. Quase que lhe consigo ouvir o corção, ela está ansiosa.
- Olha para o outro lado da estrada, a chegar à passadeira.
- Sou eu.
- Pois és.
- Eu amo-a. Ela é realmente fantástica, gosto tanto dela.
- Cuidado com o carro miúdo ! És sempre a mesma coisa.
- Eu tenho dir ter com ela.
- Já estás a ir. Estás a atravessar a estrada, olha bem para ali.
- Olha que brasa que eu sou.
- És tao humilde miúdo.
- Ela levantou-se.
- Olha para a tua cara de espanto.
- Eu sabia que ela me ia fazer uma surpresa.
- Mesmo assim fizeste uma cara de espanto.
- Fiquei surpreendido na mesma. Não estava a espera disto dela.
- Ela gosta mesmo de ti, mesmo que não o mostre sempre.
- Consigo arranjar melhor, ela não é boa o suficiente.
- Tu amas-la.
- Pois amo.
- E ela ama-te.
- Pois ama.
- Então porque é que o resto interessa ?
- Não interessa.
- Isso... Não interessa...
- Tens razão, eu amo-a. Acho que...
- Achas o que ?
- Não preciso de mais ninguém além dela. Sou tão feliz só de estar ao lado dela.
- Ela entregou-te o ramo agora mesmo.
- Olha para ela a corar ! Adoro quando ela fica corada...
- Tu dizes-lhes coisas tão bonitas.
- Digo ?
- Dizes. É pena , serem mentiras e graxa.
- O quê ?
- Sim , palavras usadas para todas.
- Não, isso nao é verdade. Eu sinto o que lhe digo.
- Então porque dizes isso a todas ?
- Ela é diferente.
- Ela está a tirar uma coisa do bolso.
- Eu AMO-A ! Como é que podes dizer uma coisa dessas !? Eu amo-a.
- Ela acabou de tirar uma coisa do bolso. Pára de me tentar acertar.
- Não digo isso a todas, com ela é diferente ! Vais levar !
- OLHA!
- O quê ?
- Ela está a pedir-te em casamento.
- Não devia ser ao contrário ?
- Ela não aguenta viver sem ti.
- Eu não sei viver sem ela.
- Então aceita.
- Não sei, não me quero casar já.
- Vais-lhe partir o coração ?
- Nao era capaz.
- Olha bem o que fizeste.
- Nao me acredito.
- Porque é que o fizeste ?
- Tinha medo.
- Olha o que aconteceu.
- Ela esta a ir embora... AU ! EI! Que grande bofetada que ela me deu.
- Mereceste.
- Vou atrás dela.
- Pois vais.
- Ela atravessou para o outro lado da rua.
- Corre.
- Corre! CORRE!
- Tas a falar para quem ? Ele nao te ouve.
- Não ?
- Não.
- Ele vai levar com...
- CUIDADO COM O ...
- Fui atropelado !
- Por um camião TIR.
- Nada bom.
- Nada mesmo.
- Porque é que ficou tudo branco agora ? Até as tuas roupas ?
- Isto é onde estás agora.
- Num sítio gigante , sem horizonte, todo branco ? Com a minha irmã morta ? Não bate certo...
- Não estás aqui mesmo, mesmo. E eu não sou a tua irmã, eu sou tu.
- Estou onde ? Estou morto ?
- Estás.
- Estou !?
- Não.
- Estou a morrer ?
- Estás. Olha para ti.
- Bata azul. Mostra-me onde está o meu corpo.
- Estás em coma. Vais morrer.
- Não quero morrer.
- Mas vais.
- Não há nada que eu possa fazer ?
- Não.
- Então porquê isto ? PORQUÊ !?
- O que é que eu te disse no início da nossa conversa ?
- Como assim ?
- O que é que eu te disse que tinhas de descobrir.
- Quem tu eras.
- Exacto.
- E és o meu subconsciente.
- Os subconscientes nao falam directamente connosco.
- Não estás a falar directamente, eu estou a morrer.
- Pois estás.
- Páras de concordar com o que eu digo ? Já me estas a enervar !
- Como queres que eu nao concorde contigo se eu sou tu ?
- És Deus !? Um anjo !?
- Qual foi a parte do "eu sou tu" que não entendeste miúdo ?
- Ok, se não és Deus nem o meu subconsciente, és o quê ?
- Tu naturalmente não usas essa coisa a que chamas cérebro pois não ?
- Não te vou responder a isso.
- Estás a tremer.
- Não quero morrer.
- Vou-te dar uma pista. O que lhe dizias sempre ?
- Eu ? A quem ? A ela ? Que ela era linda.
- Sim, isso também, mas uma coisa muito importante.
- O quê ?
- Estás a ficar sem tempo.
- AJUDA-ME !
- Não te posso ajudar.
- Dizia-lhe para pensar com a cabeça e agir com o coração !
- Sim. Estás a ficar mesmo sem tempo.
- Abraça-me , por favor , não vás.
- Aproxima-te, é a tua última oportunidade.
- Posso abraçar-te ?
- Podes tentar.
- E se eu não conseguir ?
- É a tua última oportunidade.
- Está bem.
- Larga-me. Larga-me. Larga-meee. Estás-me a esmagar !
- Consegui!
- Quem sou eu ?
- Tu és eu, és uma parte de mim, és o meus sentimentos, as minhas memórias... O meu coração.
- Sim.
- Então e agora ?
- Agora é contigo.
- Nao vou morrer ?
- Nao sei.
- Como assim !? EU ACERTEI !
- Não depende de mim agora.
- Depende de quem ?
- De ti.
- De mim ?
- Sim, já não sou tu.
- Não ?
- Não. Diz-me o que te faz querer viver.
- Ela. Se eu acordar, eu não vou ser de mais ninguém, só vou ser dela. Ela é a única coisa que me faz querer viver.
- "O Amor é fogo."
- É , já tinha ouvido dizer.
- Não se brinca com o fogo.
- Eu brinquei ?
- Hum, hum.
- Desculpa.
- Estás a falar sozinho.
- Estou a fazer o quê ?
- Estás a falar sozinho.
- Para onde é que foste ?
- Para lado nenhum. Desculpa-te.
- Desculpo-me ?
- Sim, perdoa-te.
- Apareceu aqui uma cama.
- Estás a voltar à realidade.
- Porque estás a falar baixinho ?
- Perdoa-te, luta. Não vais morrer. Não deixes que o fogo se apague.
- Vais-me deixar ?
- Acorda.
By: Fernão Lobo
Olha isto fez-me lembrar um monte de coisas estranhas :p
ResponderEliminarMas eu gostei mesmo foi do final *.*