Cinco e meia da manhã. Levantei-me do banco e olhei para o retrovisor da carrinha, com a bochecha a ser esmagada contra o vidro frio. Ao início não vi nada senão uma luz intensa, alaranjada. Adorava tanto aquilo. Aquela praia, aquele Sol, o ar era fresco, a manhã laranja, o mar azul escuro, profundo, sem destino. Não me recordava de nenhuma má memória deste lugar. Talvez nem existisse. Abri a porta e resvalei para o fora da Pão de forma. As minhas mãos tocaram a terra fria , e entralaçaram-se nos dente de leão amarelos que cresciam no cimo da falésia. Deixei a minha cabeça tombar para fora do carro e olhei para o horizonte. Não sabia descrevê-lo. Estava confuso, ao contrário. O céu tomava o lugar do mar, e o mar o lugar do céu. O Sol , no centro, dava cor a tudo isto, mostrando toda a sua majestosidade alaranjada. As nuvens no ceu pareciam feitas de pura lã, pomposas e aconchegantes navegavando no claro céu sem rumo. Dexei-me cair e as minhas costas tocaram o chão. Senti uma ligeira poeira a pairar e a camisola a ser tingida pela terra. O chão era frio e duro, e senti-me a esmagar uma centena de plantinhas que cresciam junto da nossa carrinha. O meu cabelo gigante e negro, sem qualquer corte nem penteado, encaracolado, misturou-se com os botões amarelos dos dente de leão. Naquele sítio tudo era puro. Podia viver só daquele ar fresco. Inalei o máximo de frescura que pude, e exalei tudo de uma vez, como um suspiro. Ouvi um espécie de deslizar vinda de dentro da carrinha, como se estivessem a por uma agulha sobre um disco de vinil, sabia bem o que se seguia daquilo. A musica começou a tocar bem perto do meu ouvido direito. Era uma melodia calma; o cantor: o rei. Uma espécie de rufus ao início e depois uns sons agudos, seguidos duma excelente melodia. A música transmitia paz. Tal como toda aquela tela. Parecia pintada pelo melhor artista do mundo, uma verdadeira obra-prima, até ao ultimo detalhe. Sem qualquer erro, ou engano, sem qualquer falha, simplesmente, perfeito. Magnífico. A brisa matinal levantava pequenos grãos de areia, misturados com o sal e com a humidade. Sentia-os percorrerem-me a face, correndo a minha pele morena, e tocando-me no nariz , cruzando os meus lábios e fazendo-me cócegas no pescoço. Cocei a barbicha que já brotava no fundo do queixo e comichava por todo o lado. Tinha terra nos dedos, nao terra, mas uma espécie de capa suja, como um véu translúcido que me cobria os dedos e me dava a sensação de que estava completamente sujo.
"Don't worry about a thing,
Cause every little thing is gonna be allright.
Singin' Don't worry, about a thing
Cause every little thing, is gonna be allright !"
Já me queimava o rosto. A minha visão já estava mais clara, e eu já conseguia distinguir tudo perfeitamente. Senti-a lá dentro a mexer-se, a aproximar-se. Como sempre o meu coração acelarou, como se estivesse a espera do toque dela, dum sinal, para disparar naquele frenesim louco. O barulho das ondas a bater no fundo da encosta era perfeitamente audível e bastante agradável. Ela ultrapassou a caixa de mudanças e agarrou-me numa perna. Antes mesmo de me tocar, pareceu-me que a mão dela havia disparado milhares de faíscas microscópicas para o meu corpo. Um arrepio percorreu-me o corpo e levantei calmamente o pescoço para a fitar. Ainda não aparecia no meu campo de visão, por isso, com os braços apoiados no chão, levantei-me e olhei melhor para dentro do veículo. O meu coração falhou uma batida quando a vi. Olhava-me com aqueles olhos lindos. Nada era mais bonito que aquele olhar. Com um salto caiu-me em cima, o seu cabelo castanho claro, liso, roçou-me o rosto e eu deixei-me cair novamente na terra fria. Pisava o meu cabelo com as suas mãos delicadas, provocando-me um pouco de desconforto. Esbocei uma careta e rapidamente ela corrigiu a sua posição colacando cada mão de cada lado do meu rosto. Pisquei os olhos. E mesmo antes de os abrir senti os lábios dela beijarem os meus. O meu coração atingiu a velocidade máxima numa fracção de segundo. Ela tinha aquele efeito em mim, nunca o iria saber descrever, era indescritível, completamente absurdo, talvez nem existisse. Mas preenchia-me e era daquilo que eu vivia.
Ela afastou-se e no meio do meio dos seus cabelos lá estavam aqueles dois olhos brilhantes. Os seus cabelos perfeitos tapavam a luz e conseguia distinguir cada raio a cruza-los e explodir no meu rosto. Subitamente alheei-me de toda aquela paisagem estonteante. Não havia mais nada no meu mundo. Só a queria a ela. Ela era o meu mundo. Bastava ela me dizer que me amava com a sua linda voz doce e melodiosa. Ficamos a olhar-nos durante alguns momentos. Ela sorriu-me e piscou-me o olho, como se de uma provocação se tratasse. Agarrei-lhe o rosto com ambas as mãos e beijei-a com todo a sentimento que sentia. Quando me afastei ela mordia o lábio e fixava os meus olhos com o olhar mais bonito que eu ja tinha visto. Aquilo sim era perfeito. Aqueles Olhos De Água....
By: Fernão Lobo
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