sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sem Luar

Trindade, inícios de Dezembro ou fins de Novembro, não sei precisar. Não estava um dia particularmente frio, e a paragem nem sequer se encontrava sobrelotada como seria de esperar àquela hora. Apenas uma dúzia de pessoas preenchiam os bancos de pedra cinzenta polida que habitavam a paragem. Tal como elas, eu também me encontrava encostado a parede cinzenta, sentado num banco cinzento, a olhar para o fumo cinzento que florescia da ponta do meu cigarro. Ouvi a coluna cinzenta a debitar qualquer coisa que não decifrei. Sabia que era o meu metro que se aproximava, era sempre o meu metro a passar naquele lado da linha. Afinal qualquer metro servia para ser o meu metro.
Apaguei o meu cigarro na sola da minha sapatilha e esperei até que a última fibra luminosa de tabaco ficasse negra. Então decidi tirar o meu mp3, colocar a playlist no modo random e esperar que não me saísse uma música pesada, porque era isso a última coisa que eu percisava. Uprising dos Muse, nao era de todo o que eu estava à espera. Mas era mesmo o que eu estava a precisar. Mesmo antes de me levantar do banco fingi ajeitar um cordão e colei a trident debaixo do banco cinzento. Três passos largos e entrei no maquinão. Sentei-me perto da janela, apesar de estar escuro, a vista da Ponte D. Luis era sempre maravilhosa. O metro chiou por tudo o que era canto e com um solavanco característico arrancou na sua viagem ate D. João II.
Ouvi o sinal de falta de bateria e mal parei em S. Bento, mesmo quando a música acabou, entrou um casal que me deixou curioso e o meu mp3 desligou-se. O rapaz era alto, um metro e oitenta e cinco talvez, cabelo grande até aos ombros, muitos despenteado com uns jeitos para a esquerda, castanho claro. Parecia chateado e amedrontado ao mesmo tempo, quase como se estivesse prestes a explodir, mas como se isso fosse a última coisa que ele quisesse fazer. O metro deu outro solavanco e acelarou em direcção à ponte, chilreando. Trazia vestido umas calças de ganga escura no fundo do traseiro, e um casaco verde da billabong , cheio de letras pretas e brancas, aberto no peito onde morava uma camisola totalmente branca. No fundo das calças largas viam-se umas botas todas brancas com o símbolo do mesmo verde que o casaco. A locomotiva abrandou a velocidade, tinhamos chegado à ponte. A noite inundou a paisagem , via-se o rio iluminado pelas luzes dos candeeiros e do movimento da cidade, mas não havia mais nada que iluminasse a noite. Faltava qualquer coisa cinzenta, brilhante e redonda, mas não me lembrava do quê. No céu não havia nuvens , nem estrelas, so escuridao e vazio. O rapaz encostou-se a um acento mantendo sempre o olhar distante e preocupado. A rapariga encostou-se a ele e abraçou-o. Era baixinha, um metro e sessenta provavelmente; não, um e cinquenta e nove. Tentava captar a atenção do rapaz, fixava-lhe a cara com uns olhos esperançosos e tremendamente possuídos pela insegurança enquanto o agarrava pela cintura. Tinha umas calças de ganga claras, justas às bonitas pernas, que lhe tonificavam as curvas. Também calçava umas botas, mas totalmente diferentes das do rapaz: umas timberland castanho escuro, completamente comuns que a faziam um pouco mais alta do que ela realmente era. No corpo , trazia um top verde azulado, aquela cor que ninguém sabe bem descrever, com dois ou tres botões no meio do peito, junto ao decote. Nessa zona, contrariamente a todo o resto do corpo, não era bem dotada. Por cima do fino top, vestia um casaco branco , já sujo nalgumas pontas, demonstrando que já tinha andado a "servir de vassoura" .
Ding-Dong "Morro". A claridade aumentou quando atingimos a minha penúltima paragem. Aquela zona era muito aberta e luminosa, e não passavam carros deste lado do jardim. Entraram duas velhinhas. Entretanto guardei o meu mp3 no bolso e recolhi os phones juntamente. Mais uma vez ia ter de ir à mercearia comprar pilhas, e tinha de me lembrar disto amanhã antes de ir trabalhar, outra vez. Com o típico solavanco de aceralação da máquina, a rapariga ficou muito próxima do rapaz, e tocou-lhe com a mão no rosto. O rapaz afastou a cara rapidamente e moriscou o lábio, quase como se estivesse a evitar derramar uma lágrima. Notava no seu rosto que estava em profunda dor, e que estava a dar tudo para a suportar sozinho. A rapariga no entanto não sabia como o atingir, como se um abismo gigante se tivesse aberto entre eles. Vi um arrepio a percorrer-lhe a espinha quando o rapaz afastou a cara da sua mão. Ela encostou-se ao seu peito, e voltou a abraça-lo com toda o furor que conseguiu, tentando mostrar o quao preocupada estava com a angústia do seu rapaz. Lá conseguiu que o rapaz se demonstrasse menos arrogante e pousasse o queixo moreno na sua cabeça pintada pelo loiro acastanhado dos seus cabelos. O rapaz abraçou-a também, como um acto de desespero. Ouvi-o soluçar e uma lágrima salgada escorregou-lhe do canto do olho terminando no lábio. A experessão mudou totalmente. Parecia que o rosto todo se ia desmanchar em lágrimas, uma cara totalmente horriíel, que lhe terminou toda a beleza original. Contudo tal visão nao foi prelongada, pois mal a rapariga o largou a sua cara voltou a original: dentes cerrados, a conter a dor que sentia.
Ding-Dong , "General Torres, ligação com comboios."
Havia chegado ao meu destino. Agora era a parte mais aborrecida do meu dia. O comboio para Espinho só partia meia hora depois, e eu já estava na estação. Saí do metro e percorri o jardim. Dirigi-me à máquina dos bilhetes, depois de ter descido uns bons três ou quatro lances de escadas cinzentas, e escolhi o meu destino. Enquanto esperava que o bilhete fosse impresso olhei calmamente em meu redor. Ali, não se encontrava ninguém além de mim. Recolhi o bilhete e sentei-me num banco verde. O silêncio daquelas paredes era arrepiante. Não se ouvia qualquer murmurar, ou até mesmo passos, ou um mísero barulho dum insecto a voar. Alguma coisa estava errada naquele dia. Fechei os olhos e temi adormecer ali , esperando que o risco de perder a minha boleia para casa me mantesse desperto. Inesperademente, não foi preciso muito tempo até que alguém chegasse ao sítio onde eu me encontrava e me impedisse de adormecer. Para meu espanto , era o bonito casal de míudos que tinha encontrado no metropolitano. Mas o quadro era totalmente diferente. O rapaz andava a passos rápidos, com o rosto lavado em lágrimas, e a rapariga com os seus passos de bailarina tentava alcança-lo. Conseguiu-o mesmo na minha frente. Ambos pareciam ignorar a minha presença, agindo como se estivessem sozinhos. A rapariga agarrou-lhe o braço e puxou-o para que ele ficasse de frente para ela. O rapaz olhou-a furioso, e ela pediu-lhe ternamente que lhe falasse. Ambos conversaram durante uns bons minutos, e era palpável o clima de ferida que aumentava a cada segundo. As palavras do rapaz pareciam arracandas a ferros como se estivesse a dizer as palavras erradas, ou a mentir. No entanto tentava mostrar convicção no que dizia, apesar de falhar ao faze-lo , pois largava pequenos soluços de vez a vez. A rapariga ouvia-o como se de lei se tratasse , não duvidando um pouco da veracidade dos vocábulos, mas expressando tremenda dificuldade em acreditar no que ouvia. Nao fui capaz de perceber muito bem a conversa, mas lembro-me de ouvir o rapaz dizer: "Disseste-me um milhão de vezes que as coisas nunca mais iam voltar a ser o que eram. Bem, então não percebo porque estás assim, as coisas nunca mais vão voltar a ser o que eram.". Nessa altura, a cara da rapariga foi completamente assaltada pela fúria e ela atacou: "eu devia dar-te uma chapada agora.". O rapaz não pareceu muito preocupado, pelo seu físico seria capaz de evitar a chapada facilmente. Era bem visível que o rapaz tentava afastar a rapariga dele, do coração dele, mas não queria que isso acontecesse na realidade. Já a rapariga parecia totalmente indecisa, perdida com que tinha acabado de ouvir. Nas calças dela vibrou o aparelho mais usado no dia-a-dia adolescente. Olhou-o e viu que era alguém importante. O rapaz ergueu as sobrancelhas e suspirou de tédio quando ela atendeu a chamada. Limpou as lagrimas às mangas da camisola e cruzou os braços no peito enquanto esperou que a rapariga despachesse quem quer que fosse. Entendiado com a pausa na acção, levantei-me e decidi ir comprar umas chicletes ao cafézinho da estação, abandonando os dois jovens. Para minha insatisfação, o café encontrava-se fechado, mas aproveitei para ir la fora fumar um cigarro. A escuridão no exterior era terrivel, assustadora, como se alguma coisa estivesse a sugar toda a luz. Os candeiiros não estavam a funcionar naquela entrada da estação e o pequeno largo nao apresentava qualquer sinal de luminosiadade. Hesitei ao atravessar a porta que me levaria para aquele silêncio estremecedor, mas o vício do tabaco venceu a falta de coragem e saí. Tentei novamente encontrar a Lua. Falhei ao fazê-lo, constatei que nesse dia, nem estrelas, nem lua, nem sequer nuvens povoavam o céu. Era uma noite vazia, escura, noite de Lua Nova. Observei todo o fumo exalado a sair-me dos pulmões pela boca, assim como o mingar do cigarro. Quando já só sobrava o filtro na minha mão, atirei-o para longe e voltou a ficar tudo negro. Olhei o meu relógio e verifiquei que ainda tinha dez minutos, portanto, e já que nao tinha nada com que me entreter naquele vazio, decidi voltar para dentro calmamente. Dirigi-me serenamente à entrada, em total silêncio. Uma fracção de segundo depois ouvi um ecoar de passos rápidos e vi outra vez o casal. Desta vez o rapaz tinha a manga levantada, e conseguia-lhe distinguir uma pulseira castanha no pulso moreno. A rapariga vinha em frente e cruzou-me ignorando-me totalmente. Atrás dela, o rapaz movia-se com o braço esticado tentando alcançar o dela. Também este pareceu ignorar o facto de eu lá estar e quase se esbarrou comigo, desviando-se a escassos centímetros do meu corpo. Ambos choravam. Pararam mesmo a entrada da estação, trocaram poucas palavras. Distingui apenas: "Eu amo-te. Sabes bem que te amo." da boca dele. "Se realmente me amas como dizes, vais fazer a escolha certa." ripostou ela ferozmente. Ouvindo isto fiquei curioso de como ia acabar. Os jovens encontravam junto à saída, guardando o final do seu encontro para a luz da estação cinzenta. Depois de dito isto , ainda trocaram mais umas palavras , indecifraveis para mim, mas sentia-lhes o doce e forte sentimento com que eram proferidas. Por fim, despediu-se dele com um beijo violento e com uma pancada sêca de punho cerrado no peito. O rapaz pareceu solidificar, o olhar direccionado para o vazio. A rapariga tinha transposto a porta e desaparecia na escuridão sem luar.
Deixei-o lá sozinho, achei que fosse mais fácil para os dois. A seguir voltei para o meu lugar na estação. Sentado no banco cinzento, rodeado de paredes cinzentas, e ouvi a coluna cinzenta a anunciar o meu comboio...

By: Fernão Lobo

1 comentário:

  1. Uprising *.*
    Ohhh bé ássim que li isto tive de dizer algo xD

    Building for the futur :p

    ResponderEliminar